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domingo, 16 de março de 2014

Dilma se encontra com o jogador Tinga e o árbitro Marcio Chagas - Blog do Planalto

A presidenta Dilma Rousseff recebeu nesta quinta-feira (13), no Palácio do Planalto, o jogador de futebol Tinga e o árbitro Marcio Chagas, que recentemente foram vítimas de racismo nos campos de futebol. Pelo Twitter, Dilma já havia prestado solidariedade a eles e afirmado que a Copa das Copas será também a Copa contra o racismo.
Em entrevista coletiva após a reunião, Tinga afirmou que o encontro foi interessante para mostrar que Dilma está atenta a situação. O volante do Cruzeiro se manifestou com relação não apenas ao racismo, mas contra todo tipo de preconceito no país, e disse que a educação é a principal forma de combate.
“Educação é uma das coisas que nos faz pensar nos outros. E o que vai acontecer daqui para frente a gente não sabe. O que acredito que é importante é que ela se preocupou com a situação que aconteceu nesse último mês, tanto com a minha situação quanto a do Márcio, a do Arouca, e tive oportunidade de falar que tem outras coisas que acontecem no país em termos de preconceito. (…) Espero que a gente possa conscientizar que isso é um fator de educação”, comentou.

Alunos evangélicos se recusam a fazer trabalho sobre a cultura afro-brasileira - A Crítica.com

O protesto de um grupo de 13 alunos evangélicos do ensino médio da escola estadual Senador João Bosco Ramos de Lima - na avenida Noel Nutels, Cidade Nova, Zona Norte -, que se recusaram a fazer um trabalho sobre a cultura afro-brasileira – gerou polêmica entre os grupos representativos étnicos culturais do Amazonas.
Os estudantes se negaram a defender o projeto interdisciplinar sobre a ‘Preservação da Identidade Étnico-Cultural brasileira’ por entenderem que o trabalho faz apologia ao “satanismo e ao homossexualismo”, proposta que contraria as crenças deles.
Por conta própria e orientados pelos pastores e pais, eles fizeram um projeto sobre as missões evangélicas na África, o que não foi aceito pela escola. Por conta disso, os alunos acamparam na frente da escola, protestando contra o trabalho sobre cultura afro-brasileira, atitude que foi considerada um ato de intolerância étnica e religiosa. “Eles também se recusaram a ler obras como O Guarany, Macunaíma, Casa Grande Senzala, dizendo que os livros falavam sobre homossexualismo”, disse o professor Raimundo Cardoso.
Para os alunos, a questão deve ser encarada pelo lado religioso. “O que tem de errado no projeto são as outras religiões, principalmente o Candomblé e o Espiritismo, e o homossexualismo, que está nas obras literárias. Nós fizemos um projeto baseado na Bíblia”, alegou uma das alunas.
Intolerância gera debate na escola
A polêmica entre os alunos evangélicos e a escola provou a ida de representantes do Fórum Especial de Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgêneros do Amazonas, da Ordem dos Advogados do Brasil, secção do Amazonas, e do Ministério Público do Estado.
Para a representante do movimento de entidades de direitos humanos e do Fórum Especial de Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgêneros do Amazonas, Rosaly Pinheiro, a problemática ocorrida na escola reflete uma realidade de racismo e intolência à diversidade. “Nós temos dados de que 39% dos gestores e alunos das escolas são homofóbicos. Essa não pode ser encarada como uma oportunidade para se destacar um fato ruim, mas sim uma oportunidade de se discutir, de uma forma mais ampla essas questões com os alunos”,disse.
Para a representante do Ministério Público, Carmem Arruda,a situação também deve ser encarada como uma oportunidade de esclarecer a comunidade.“É uma chance de discutir a diversidade e uma oportunidade de contruirmos uma conscientização junto não apenas aos alunos, mas sim às famílias que serão fazem refletidas junto a comunidade”.
Representante do Fórum pela Diversidade da OAB/AM, Carla Santiago, ressaltou que o episódio não era para ser encarado como um ato que fere os direitos de negros, homossexuais, mas sim um momento de conscientizar os alunos sobre a etnodiversidade. A conversa entre os diversos segmentos envolvidos prometia uma nova rodada, mas até o fechamento desta edição estava mantida a posição da escola de cobrar o trabalho original passado aos alunos pelo professor de História.

segunda-feira, 10 de março de 2014

O que fizeram com a cabeça e os cabelos de Vinícius? - www.seppir.gov.br


Sempre, no dia de domingo, reservo um pequeno tempo para refletir. Nesta semana, assisti perplexa ao noticiário nacional e constatei mais uma vez que, embora os nossos esforços não sejam totalmente em vão na tarefa de combater o racismo, a discriminação e todas as formas de intolerância, estamos muito distantes de banirmos esses males que continuam incrustados em nossa sociedade.

Desta vez, prenderam um jovem negro, psicólogo, ator com participação em telenovela de uma das emissoras mais importantes do país. O que significa dizer que não se trata de uma pessoa completamente anônima, ainda que o fosse o ato também não se legitimaria, e sem o menor respeito à da dignidade da pessoa humana, bem como às leis vigentes no país, ele foi conduzido ao cárcere. Assim o foi, sem que se considerassem os seus apelos e justificativas de que não era ladrão, por motivos bastante óbvios para ele e para todos nós.

Vítima de uma denúncia infundada, formulada por uma pessoa simples, do povo, e que por isso mesmo não detinha uma informação apurada acerca dos requisitos formais desencadeadores e justificadores de uma prisão em flagrante, haja visto que o objeto do “furto” não se encontrava nas mãos de Vinícius Romão.

Nessa linha convém ponderar que essa senhora, “a copeira”, também fora vítima desse sistema violento estabelecido no Brasil, que nos deixa completamente órfãos de uma estrutura e política de segurança pública capaz de nos dar a tranquilidade necessária de andar nas ruas de qualquer metrópole sem nos sentirmos molestados por infratores, sem desfrutar da tranquilidade mínima que deveria ser garantida a todo cidadão que paga os seus impostos e que a Constituição Federal de 1988 assegura no texto preambular do art. 5º: “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:...”

Uma vez sentida a sua falta por amigos e parentes próximos, estes passaram a procurar as autoridades que fizeram o famigerado “flagrante”, com vistas a esclarecer os fatos e pedir a liberação imediata do rapaz. Fato este que foi rechaçado pela autoridade condutora do inquérito, que preferiu mantê-lo preso por mais de 17 (dezessete) dias com base em um reconhecimento impreciso, a considerar as afirmações induvidosas das pessoas que o conheciam, por manter com ele um longo relacionamento a exemplo dos seus colegas de faculdade.

Aprendi que em direito penal vigora o princípio “in dubio pro réu” (na dúvida que se favoreça o réu), exatamente para que se evite o cometimento de injustiças que causem consequências irreparáveis, como é o caso, porque logo em seguida a denunciante externou publicamente o seu equívoco na identificação, dizendo que de fato não tinha certeza se fora o jovem Vinícius autor do roubo ou não.

Por mais que queiramos nos distanciar do componente cor da pele como identificador criminal em nosso país, é praticamente impossível nos afastarmos do critério utilizado pela maioria das instituições policiais. Principalmente, quando se trata de abordagem e quando se faz necessária qualquer averiguação entre o negro e o não negro, o delinquente para a autoridade será sempre o negro. Isso é fato.

Neste sentido, não penso isoladamente, trago a lume algumas assertivas do ilustre jurista Siqueira Castro quando diz: “…O sistema penitenciário tem cor. Isto nada mais é que um viés criminal, sendo exercido com toda força cogente, violenta, do Estado, para punir o segmento menos abastado da sociedade, que carrega sobre si o ESTIGMA DA SUSPEIÇÃO PENAL”.

As variantes frequentes que estão agregadas ao ser negro no Brasil significam morar em favela, estar desempregado ou subempregado, possuir baixo nível de escolaridade, enfim, estão cercados de componentes discriminatórios econômico-sociais, que residem fortemente no imaginário coletivo, cuja carga que recai sobre esse segmento racial está dotada da fúria da repressão policial e do direito penal oficial, comenta o Professor Siqueira.

Ser negro por si só, já lhe deixa a marca de suspeição de praticante de delitos como furto, vadiagem (Contravenção Penal no Brasil) e por aí vai…

Daí porque, pouco importava a tentativa dos amigos e familiares em convencer a autoridade policial de que o acusado não cometera aquele ilícito. Vige no seio destas instituições a premissa de que ser negro já é suficiente para prévia condenação, valendo invocar, porque oportuno, o pensamento de Montesquieu: os costumes e a mentalidade não se mudam por leis, mudam-se pela educação. E cada vez mais, estou convencida disto.

Neste caso, reparar judicialmente o erro cometido, minimiza, mas não retira a dor, o sofrimento, a vergonha e o constrangimento. Não restaura a sua imagem e até mesmo o seu cabelo ‘black power’, aquele cabelo que foi raspado de qualquer jeito sem que ele quisesse retirá-lo. Pode parecer uma coisa simples, mas, aquele era um dos elementos integrantes e caracterizadores da sua identidade negra.

A sociedade e as instituições brasileiras precisam saber que as mazelas da escravidão ainda estão vivas e que essa vergonha histórica e as suas consequências persistem, a exemplo do racismo latente que permeia o tecido social brasileiro. O professor Fábio Konder Comparato nos alerta de que “o pior desprestígio para o país, é ocultamento sistemático da realidade escravista. Temos que tirar isso da cabeça das pessoas e para tirarmos, é preciso que isso venha à tona e se diga exatamente o que foi a escravidão”.

Casos como esses, têm que nos remeter a uma reflexão profunda… O que fazemos agora, chamando a todos os brasileiros para pensarem… Porque os cabelos de Vinicius apenas por ser suspeito de furto foram raspados? E por outro lado, analisar e responder, se alguém tem notícia da existência de infratores de colarinho branco que tenham tido os seus cabelos também raspados, independentemente de terem sido ou não condenados?

Que país é esse e que polícia queremos?

* Sílvia Cerqueira - ex-Conselheira Federal, fundadora e primeira presidente da Comissão Nacional de Promoção da Igualdade do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB).



Clube Renda 10

Prêmio Theodosina Ribeiro - Prestigie

Duda voa no último salto e conquista o inédito bicampeonato mundial - Globo Esporte.com

Mauro Vinicius Duda Salto em Distãncia (Foto: Reuters)
O olhar estava fixo. Mauro Vinícius da Silva, o Duda, sabia que se acertasse a tábua de impulsão poderia subir ao pódio no último voo do salto em distância. Assim como na eliminatória, teria de ser na raça, na emoção. Ele nem se importou com o barulho na Ergo Arena para a final dos 60m rasos masculina que ocorria ao mesmo tempo e foi perfeito. Duda vibrou com um grande voo e explodiu em euforia quando o placar mostrou a marca de 8,28m. O brasileiro só teve de esperar três adversários saltarem para confirmar: é bicampeão mundial em pista coberta. Em Sopot, neste sábado, Duda voltou ao topo do mundo.
Desta vez, uma vitória inquestionável. Os principais saltadores estavam em ação também, não era um campeonato esvaziado como o de Istambul, em 2012. Nem o atual campeão mundial ao ar livre, o russo Aleksandr Menkov, nem o chinês Jinzhe Li, que liderava até a última rodada. O campeão mundial do salto em distância é brasileiro, que igualou o recorde nacional indoor.
O chinês Li levou a prata, com a marca de 8,23m. O sueco Michel Tornéus completou o pódio, com a marca de 8,21m.
- Eu e o Tornéus, o sueco que é meu amigo, ficamos esperando. O chinês foi para uns 8,50m, mas queimou. Sabia que o potencial dele é grande, ele é muito técnico. Sabia que todos na final poderia vencer. Passei em sétimo e venci. O Tornéus que me disse que eu ganhei, não tinha visto que o chinês queimou. Nós atletas temos a mania de dizer que não caiu a ficha, não posso dizer isso porque sou bicampeão mundial. Isso sim. Desculpem pelos palavrões que soltei na comemoração, saiu. (risos) Só amanhã vou entender o que está acontecendo. Poderia falar mil coisas, mas sei que Deus sempre é justo. Tive uma lesão, mas trabalhamos muito. Não existe campeão sem dedicação. Nunca poderia deixar de agradecer. Sou suspeito para falar. O atletismo me descobriu com 17 anos. Tem de ter calma, porque do contrário vêm lesões e erros, só não vêm resultados. A concentração total. Igualei o meu melhor. Saio o cara mais feliz do mundo por ter igualado o recorde nacional - disse. 

RACISMO NO PONTO FRIO DO PLAZA-NITERÓI: O DIA DA MULHER DE UMA NEGRA QUE LUTA POR SEUS DIREITOS - MAMAPRESS

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Thayná Trindade, jovem mulher negra de 25 anos, mãe de um bebê com poucos meses de idade, foi discriminada racialmente no dia 26.02, por um vendedor da Loja Ponto Frio, no Shopping Plaza de Niterói.
Procurou o gerente da loja e não o achou. Solidariedade de outros funcionários com sua dor e sofrimento também não encontrou. Um passante que assistira a situação racista que vivia, ofereceu ajuda à Thayná, moradora do Rio que passeava em Niterói.
Como não conhecia bem a cidade, a pessoa que se prontificara a ser testemunha, a acompanhou até a 76ª delegacia de polícia e como tinha que voltar ao trabalho, deixou seus dados pessoais e endereço para o registro de ocorrências.
Na delegacia a encaminharam para a DEAM(delegacia das Mulheres), onde conforme nos relatou foi muito bem atendida, pois assim que começou a contar o que acontecera, todas as suas forças minaram e desabou em choro ao lembrar a humilhação que passara  e por não ter recebido nenhum socorro de qualquer funcionário da loja Ponto Frio, presente na hora a agressão. “Alguns ainda riram, relatou”.
Mesmo na boca do carnaval, Thayná não fez por menos, procurou os órgãos competentes e amigos do Movimento Negro que se prestaram à ajudá-la. E botou a boca no trombone, pois como dizia  a cada um, “isto não pode ficar por isso mesmo. Tá todo dia acontecendo e as pessoas discriminadas preferem deixar para lá”.
O processo está andando e a delegacia já intimou a gerência da Ponto Frio a apresentar o nome do suspeito para acareação.
Ao monitorar as redes sociais, o setor de comunicação da Ponto Frio de São Paulo soube do caso e entrou em contato com ela, para que tivesse uma reunião que aconteceu hoje, sábado, 8 de março, o Dia Internacional da Mulher, quando a gerência da região de Niterói e São Gonçalo iria lhe dar conhecimento das providências, que estavam sendo tomadas contra o funcionário, para quem Thayná Trindade pede a demissão.
Nesta reunião com o gerente regional a qual compareceram além do advogado de Thayná, Dr Bruno Alves, representantes de jovens ativistas negras do Rio e a equipe da Ceppir-Niterói, também estiveram presentes pessoas da cidade que vieram demonstrar sua solidariedade contra o racismo.
Para desagrado do grupo, a gerência não estava preparada para receber Thayná e sua comitiva solidária, pois foram atendidos em pé no meio da loja, por falta de uma sala privada. O gerente também não fora informado por São Paulo, que a presença de Thayná era para  ouvir pessoalmente de um representante da Ponto frio local, sobre as providências que estavam sendo tomadas pela empresa em relação ao caso, conforme havia sido combinado por telefone, com a assessoria de comunicação em São Paulo. Equivocadamente o gerente regional pedira, que ela fizesse um relato à mão do que ocorrera para que depois de encaminhada ao setor jurídico, a Ponto Frio pudesse dar uma resposta.
Depois de uma pequena discussão, as dúvidas foram sanadas e Thayná deu um prazo até sexta-feira, 14.03, para que a Ponto Frio lhe desse respostas às suas demandas independente do processo judicial, que em resumo são:
Apuração interna dos fatos.
Nome e medidas tomadas contra o autor do racismo.
Informação sobre treinamento de funcionários e que medidas serão tomadas para que casos humilhantes como o que aconteceu com ela não se repitam e além do fato.
Treinamento especial para os outros funcionários que não lhe prestaram socorro, apesar de terem sido testemunhas da agressão racista que sofreu.
Ficou também acordado com a gerência regional um encontro a ser realizado em outro ambiente, em que será apresentado e discutido com a Ceppir-Niterói, advogados e ativistas contra o racismo um plano para que a loja do Plaza da Ponto Frio tenha mais funcionários negros, e que em todas as lojas seja feito um treinamento especial para que não ocorram caos como estes, e caso ocorram, tenham um plano de atendimento imediato à vitima de racismo.
No meio da reunião também compareceu o administrador do Shopping Plaza Niterói, com quem os representantes da Coordenação de Igualdade Racial de Niterói, juntos com ativistas negros da cidade, aproveitaram para marcar uma reunião, para tratar dos casos de racismo no Shopping, que não são levados às delegacias e para se pensar conjuntamente, em como se incentivar para que mais negros trabalhem nas lojas do Plaza-Niterói, além preparação de treinamentos para que todos os funcionários do Shopping saibam como tratar os clientes de pele negra.SAM_3266
Chegou-se a ter um momento de descontração geral, quando os presentes puderam constatar, o rebuliço causado entre os seguranças, com a presença daquele grupo compacto de mulheres negras, acompanhadas de alguns homens também de pele negra, a caminharem pelo Shopping, pois caso fossem acusados de estarem fazendo um rolezinho, iria custar-lhes 10 mil reais por cabeça.
“Na última quarta-feira, um passeio pelo Plaza Shopping, em Niterói, terminou de maneira frustrada para a vendedora Thayná Trindade, de 25 anos. A jovem conta que passava em frente à loja Ponto Frio, no 1º piso do centro comercial, quando um dos funcionários começou a fazer comentários preconceituosos sobre seu cabelo.
De acordo com Thayná, o homem, que se identificou apenas como Tito, apontou para ela e disse “tinha que ser! patrocínio da Assolan!”, referindo-se ao seu cabelo estilo black power. Ele teria ainda feito um gesto, passando o dedo sobre as costas das mãos, em menção a cor de pele de Thayná.
Depois dos comentários, a jovem conta que outros funcionários riram da situação. Ela procurou a gerência da loja, mas sem sucesso. Uma testemunha foi com ela até a Delegacia de Atendimento à Mulher de Niterói, onde o caso foi registrado como “injúria por preconceito”. O caso também foi encaminhado para Coordenadoria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial da cidade.
Questionada sobre o que teria levado o homem a fazer os comentários preconceituosos, Thayná não tem dúvidas.
- Racismo, o que mais seria? Eu saio por aí rindo de alguém que use um cabelo longo, liso, até as costas? Não né? Faltam ainda debates sérios sobre racismo aqui no Brasil. O povo está acostumado a fechar os olhos para tudo, essa história de um ‘povo miscigenado e feliz’ é mentira! Racismo velado, é isso que acontece aqui. Basta comparar as políticas públicas que acontecem nos Estados Unidos e o que é feito aqui – denuncia a jovem.”

sábado, 8 de março de 2014

Jean Wyllys: Para Alex, com carinho - Geledés

Semelhante a Alex, que morreu espancado pelo próprio pai, quando criança eu também não tinha "jeito de homem"; gostava de brincar com as meninas, gostava de cantar e dançar.


Jean Wyllys: Para Alex, com carinho
Alex teve o fígado dilacerado pelo próprio pai, que não aceitava o ‘jeito afeminado’ do filho.

Quem me acompanha por aqui sabe que não tenho, por hábito, tratar de minha vida privada nem de minha intimidade. Concentro-me em debater idéias e fatos, sobretudo os ligados ao meu trabalho ou ao meu consumo cultural. Mas hoje vou abrir uma exceção…
Talvez seja a proximidade do aniversário de 40 anos, talvez seja o acúmulo de sentimentos não processados devido ao trabalho árduo dos últimos três anos, mas a verdade é que ando à flor da pele…
Hoje tive uma crise de choro ao ouvir, vinda da lanchonete da esquina, a música “No dia em que eu saí de casa”. A letra descreve quase que em detalhes um episódio de minha vida (e, por isso mesmo, as lembranças de minha mãe foram tão inevitáveis quanto as lágrimas):
“No dia em que saí de casa, minha mãe me disse ‘filho, vem cá’; passou a mão em meus cabelos; olhou em meus olhos e começou falar: ‘por onde você for, eu sigo com meu pensamento sempre, onde estiver; em minhas orações, eu vou pedir a Deus que ilumine os passos seus’.
Eu sei que ela nunca compreendeu os meus motivos de sair de lá, mas ela sabe que, depois que cresce, o filho vira passarinho e quer voar. Eu bem queria continuar ali, mas o destino quis me contrariar… E o olhar de minha mãe na porta, eu deixei chorando a me abençoar! A minha mãe, naquele dia, me falou do mundo como ele é; parece que ela conhecia cada pedra que eu iria por o pé. E sempre ao lado do meu pai, da pequena cidade, ela jamais saiu… Ela me disse assim: ‘meu filho, vá com Deus que este mundo inteiro é seu!”.
Depois de ouvir essa música, ainda sentado ao computador para concluir uns textos, li a matéria de O Globo com a história completa do garotinho Alex, morto a pancadas pelo próprio pai para que “tomasse jeito de homem”. Alex, natural de Mossoró, RN, fora enviado, pela mãe, ao Rio de Janeiro para viver com o pai, desempregado e envolvido com o tráfico de drogas, porque ela, mãe de outros três filhos (também criados por terceiros), poderia perder a guarda de Alex por não enviá-lo à escola, já que não tinha meios para tal.
Olhei a foto do enterro de Alex e meu coração se apertou ao perceber que não havia quase ninguém lá… Sozinha, aquela semente indefesa esmagada violentamente por sua natural exuberância, não tinha ninguém por ela na despedida dessa vida que lhe foi tão injusta.
Meu coração se partiu e não pude controlar os soluços de choro. Por um instante, vi-me naquele caixão, sem futuro…
Semelhante a Alex, quando criança, eu também não tinha “jeito de homem”; gostava de brincar com as meninas, de roda; de desenhar no chão com palitos de fósforo riscados e pegava, escondido, as bonecas de plástico baratas de minhas primas; semelhante a Alex, eu gostava de cantar e dançar e essa minha diferença me tornava alvo de injúrias e insultos desde que me entendo por gente. Cresci sob apelidos grosseiros e arremedos feitos pelos de fora. Naquela miséria em que eu vivia na infância, trabalhando desde os dez anos de idade nas ruas, o meu “jeitinho” me fazia vulnerável… e eu sabia disso ou, ao menos, intuía; por isso, dediquei-me aos estudos e ao exercício da minha inteligência. Busquei ser um menino admirável na escola e na Igreja para que meus pais não tivessem desculpas para me bater por aquilo que eu não podia mudar em mim. Nem minha mãe amada nem meu pai que já se foi me espancaram por eu ser diferente, mas, ante os insultos e as injúrias de que eu era vítima, ambos me pressionavam com olhares e cobranças e meu pai, em particular, com um distanciamento.
Minha estratégia de sobrevivência deu certo, em casa e na escola. Transformei-me num adolescente inteligente e admirado. No movimento pastoral, aprendi a me levantar contra as injustiças (inclusive contra aquelas de que eu era vítima); aprendi o que era a homossexualidade e que havia outros iguais a mim, o que me levou a passar da vergonha para o orgulho do que era. Cursei, depois de um disputado vestibular, um dos mais cobiçados colégios técnicos da Bahia. E virei orgulho de meus pais, irmãos e de todos os meus familiares e vizinhos que me insultaram.
Tanto que, no dia em que saí de casa de vez, rumo a Salvador, os olhos de minha mãe amada diziam: “Meu filho, vá com Deus que esse mundo inteiro é seu”. E é!
Mas eu e outros poucos que escapamos dos destinos imperfeitos ainda somos exceções. A regra é ser expulso de casa ou fugir como meio de sobreviver; é descer ao inferno da exclusão social e da falta de oportunidades; ou ter o futuro abortado pela violência doméstica, como aconteceu com o pequeno Alex…
Hoje eu quis, do fundo de meu coração, ter encontrado Alex antes de sua morte violenta e trazê-lo para perto de mim; quis voltar o tempo e livrá-lo da miséria em Mossoró e das mãos de seu algoz; de chamá-lo de “filho”; olhar em seus olhos e dizer “Por onde você for, eu te seguirei com meu pensamento pra te proteger”; quis apresentá-lo à minha mãe para que ela dissesse, a ele, “seu pai era igual a você quando criança e hoje eu tenho muito orgulho dele”…
Não deu, Alex. O destino nos contrariou: não nos quis juntos. Mas, em minhas orações, eu vou pedir a Deus, se é que ele existe mesmo, que ilumine sua alma…