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terça-feira, 15 de abril de 2014

Justiça considera Zara responsável por escravidão e empresa pode entrar na ‘lista suja’ - Reporter Brasil

A tentativa da Zara de anular na Justiça os autos de infração da fiscalização que resultou na libertação de 15 trabalhadores em condições análogas às de escravos em 2011 fracassou. O juiz Alvaro Emanuel de Oliveira Simões, da 3ª Vara do Trabalho de São Paulo, negou na última sexta-feira, dia 11, recurso da empresa nesse sentido e cassou a liminar que impedia a inserção no cadastro de empregadores flagrados mantido pelo Ministério do Trabalho e Emprego e pela Secretaria de Direitos Humanos, a chamada “lista suja” da escravidão.
Em sua decisão, o magistrado afirma que, como defendido pela Advocacia-Geral da União, a empresa tem sim responsabilidade direta pela situação constatada, critica a tentativa da Zara de caracterizar os costureiros resgatados como empregados da empresa intermediária Aha e classifica a maneira como a terceirização dos trabalhadores foi registrada como “fraude escancarada”.
Fotos: Bianca Pyl
Blusa da Zara produzida com trabalho escravo. Fotos: Bianca Pyl
“A decisão é bem fundamentada e certamente configurará um divisor de águas na discussão sobre a responsabilidade jurídica por condições de trabalho em cadeias produtivas”, afirma Renato Bignami, coordenador do programa de Erradicação do Trabalho Escravo da Superintendência Regional do Trabalho, que ressaltou a importância de o relatório de fiscalização reunir documentos e provas detalhando a situação. “O juiz leva em consideração todos os argumentos apontados pelos auditores na sua decisão”, ressalta.
Da Espanha,  Raúl Estradera, porta-voz da Zara, afirmou à Repórter Brasil que a empresa vai recorrer da sentença. “É mais um passo em um processo judicial que vai ser longo. Com todo respeito à decisão, entendemos que não foram considerados nossos argumentos e que não tivemos oportunidade de nos defender de forma adequada”, afirma, insistindo que a responsabilidade é da empresa intermediária. “Foi essa empresa que realmente cometeu as irregularidades, e obteve o lucro com isso. Eles que deveriam estar sendo punidos. Nós temos tomado ações de responsabilidade social, inclusive colaborando com entidades públicas e do terceiro setor em um esforço para melhorar as condições de trabalho não só nas nossas cadeias produtivas, mas no Brasil em geral.”
das
Costureira resgatada produzindo roupas da Zara em 2011
Subordinação camuflada
Apesar dos argumentos e da tentativa de transferir a culpa para a intermediária, para a Justiça do Trabalho não restam dúvidas de que a responsabilidade é da Zara. A sentença aponta que a Aha foi contratada para minimizar custos e burlar a legislação trabalhista. “A fraude da intermediação é escancarada, pois, na verdade, houve prestação em favor da vindicante com pessoalidade, não eventualidade, remuneração e subordinação econômica”, diz a decisão, que ressalta que ”a subordinação, embora camuflada sob a aparência de terceirização, era direta aos desígnios da comerciante das confecções”. O texto destaca ainda ”que a fiscalização verificou, outrossim, que as oficinas onde foram encontrados trabalhadores em condição análoga à de escravidão labutavam exclusivamente na fabricação de produtos da Zara, atendendo a critérios e especificações apresentados pela empresa, recebendo seu escasso salário de repasse oriundo, também exclusivamente, ou quase exclusivamente, da Zara”.
O argumento de que a Zara não tinha conhecimento da situação a que os trabalhadores estavam submetidos também é refutado na decisão. “A Aha não tinha porte para servir de grande fornecedora, e disto ela [a Zara] estava  perfeitamente ciente, pois, realizando auditorias sistemáticas, sabia do extenso downsizing realizado, com o número de costureiras da Aha caindo mais de 80%, ao tempo em que a produção destinada à Zara crescia”, diz a sentença. “A Zara Brasil Ltda. é uma das maiores corporações do globo em seu ramo de negócio, custando crer, reitere-se, que tivesse controles tão frouxos da conduta de seus fornecedores, mostrando-se muito mais palatável a versão defendida pela fiscalização, de que, na realidade, controlava-os ao ponto de deter a posição de empregadora.“ 
Oficina onde
Oficina onde peças eram fabricadas tinha condições degradantes
Na sentença, o juiz também critica o fato de a empresa alegar, ao tentar negar a responsabilidade por trabalho escravo, que tem contribuído com o poder público e com ações sociais, chamando a atenção para o fato de o Termo de Ajustamento de Conduta firmado junto com o Ministério Público do Trabalho ter sido assinado meses após o resgate. “A celebração de TAC com o Ministério Público do Trabalho, embora louvável, foi posterior à autuação, não implicando, logicamente, nenhuma influência no resultado da lide, por não convalidar situação pretérita”, diz o texto, destacando que o investimento em ações sociais estava diretamente relacionado à preocupação em recuperação da marca. “Chega a ser insólito, de outra banda, o longo discurso derredor de conduta da entidade capitalista, igualmente posterior à lavratura dos Autos e igualmente desinfluente para o deslinde desta contenda, no sentido de prática de ações de certa repercussão social, cujo objetivo primordial foi, sem dúvida, a recuperação da imagem da marca, imensamente desgastada pela repercussão dos resultados da fiscalização na mídia.”
“Lista suja”Na sentença, o juiz reforça ainda a importância do cadastro de empregadores flagrados, a “lista suja”, e reafirma sua legitimidade. Ele escreve: “Diversos dispositivos legais fornecem o alicerce para a edição da Portaria nº 2, de 12 de maio de 2011 [que rege o cadastro], merecendo destaque a própria Constituição da República, que erige em princípios fundamentais o valor social do trabalho e a dignidade da pessoa humana, e consagra, desde seu preâmbulo, o direito à liberdade, e todos esses princípios estariam sendo vilipendiados se acatada a tese da postulante”. 
No recurso que foi rejeitado na sexta-feira, a Zara questionava a própria existência da “lista suja”, posicionamento extremo que levou a empresa a ser suspensa do acordo empresarial contra a escravidão, o Pacto Nacional pela Erradicação do TrabalhoEscravo.

Chegou a hora de empreender fora de casa! - Revista Raça


Nos últimos dez anos, as pesquisas apontam o crescimento da população feminina, e como consequência, está acontecendo uma mudança no cenário do empreendedorismo brasileiro. De acordo com o SEBRAE, o número de negros empreendedores cresceu 28,5%. De acordo com a Pnad – Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios do IBGE, a participação das mulheres no mercado de trabalho passou de 41,7% (2001) para 42,2% (2011); o número de mulheres à frente de um negócio passou de 28,7%, em 2001, para 30,8% em 2011.
Embora o crescimento apresente um novo aspecto na produção e participação do negro na economia brasileira, pesquisas indicam que mulheres continuam tendo salários menores do que os homens, e quando o recorte se soma ao parâmetro racial, as diferenças se tornam ainda maiores. “As mulheres têm avançado na conquista de seu espaço no mercado de trabalho ao longo dos últimos anos, têm conquistado mais postos de destaque e cargos de liderança, tanto em empresas como nos governos. Entretanto, ainda temos desafios. Apesar de sermos a maioria entre as pessoas em idade ativa – 52,3% – ainda somos minoria entre as pessoas ocupadas – 42,4% (PNAD 2012). Além das dificuldades de acesso ao mercado de trabalho, quando ocupadas, as mulheres recebem menos do que os homens”, aponta Tatau Godinho, da Secretaria de Políticas do Trabalho e Autonomia Econômica das Mulheres da Presidência da República.
Além do fator de gênero, o fator racial aumenta os índices da desigualdade entre homens e mulheres negras. “O racismo é um importante indicador de análise da dinâmica das relações no mundo do trabalho, considerando que a situação de desigualdade das mulheres negras se manifesta de formas variadas: ocupação dos postos mais baixos da escala salarial, com maior precarização; remuneração desigual em ocupações de igual categoria; discriminação na admissão, promoção e qualificação. Somado a isso, são obrigadas a conciliar o emprego com as responsabilidades familiares, enfrentando assim uma dupla ou tripla jornada de trabalho.
Apesar de as mulheres terem sido incorporadas às novas atividades produtivas, as relações de poder entre mulheres e homens e entre mulheres brancas e mulheres negras nestes espaços não têm se alterado significativamente ao longo dos anos. Segundo o IBGE, entre os donos de negócios existentes no Brasil, por exemplo, 31% são mulheres e 69% são homens. A participação das mulheres é ligeiramente maior na categoria outros (principalmente amarelos), com uma proporção que chega a 34% do total, e cai para 32% na categoria dos brancos e 29% entre os pretos e pardos. A participação dos homens é de 71% nos pretos e pardos, 68% nos brancos e 66% nos outros (e 69% na média geral)”, explica Mônica Alves de Oliveira, diretora de programas da Secretaria de Ações Afirmativas da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial.
Outro fator que aponta as desigualdades se dá no território brasileiro: “52% dos novos empreendedores - aqueles com menos de três anos e meio de atividade - são mulheres. A força empreendedora feminina é a maioria em quatro das cinco regiões brasileiras. Apenas no Nordeste elas ainda não ultrapassaram os homens, mas estão quase lá, com aproximadamente 49% de participação entre os novos empresários. As mulheres também são mais escolarizadas e investem mais em qualificação, buscam acesso às informações, não permitem amadorismo”, aponta Luiz Barreto, presidente do SEBRAE.
Se por um lado a tendência histórica são as mulheres negras ocupando os serviços domésticos, por outro, o aumento de experiências empreendedoras entre a comunidade negra feminina muda o curso dos números, que reforçam aspectos de uma sociedade onde a democracia racial e de gênero e as políticas de ações afirmativas sejam incipientes ao processo de equidade social; o aumento de mulheres no mercado empreendedor é notável nos últimos anos, apresentando aspectos econômicos de concorrência e criação de uma segmentação de público notável. Do mercado da moda à criação de produtos voltados ao segmento afrodescendente, as mulheres negras estão se fazendo notar. “Analisando a categoria das mulheres que trabalham por conta própria, vemos, mais uma vez, que elas estão mais concentradas em áreas semelhantes àquelas que empregam mais mulheres no mercado de trabalho: 32,6% das mulheres atuam no setor de serviços e 29,8% no comércio. O setor de atividade com menos de presença de mulheres é o da construção. Apenas 0,2% das mulheres que trabalham por conta própria atuam nesse ramo”, explica Godinho.
Um exemplo notável entre as empreendedoras paulistanas, Adriana Barbosa há onze anos realiza o primeiro e único evento que reúne empreendedores negros, a Feira Preta. “A mulher negra, ao longo dos últimos anos, vem construindo suas próprias estratégias para superar os desafios e obstáculos do dia a dia, e olha que não são poucos. Não é à toa que boa parte do perfil empreendedor da Feira Preta são mulheres, não só da Feira como o perfil dos afro-empreendedores que tem aparecido nas pesquisas que fazemos sobre o tema. O perfil empreendedor da mulher negra não é de agora, há muito tempo ela comanda a maioria dos lares brasileiros, é ela que traz o dinheiro pra casa e cuida da parte orçamentária da família. E traz o dinheiro pra casa com pequenos negócios, seja vendendo quentinhas, fazendo cabelo, ou criando peças de artesanato. Muitas delas estão na informalidade, mas já empreendendo há muitos anos”, observa Adriana.
Políticas, formação e reconhecimento da afro-empreendedora Exemplo entre as mulheres empreendedoras negras de sucesso, Zica Simões foi indicada na lista da Forbes como uma das brasileiras mais influentes. “É maravilhoso! Quando a gente começa um novo negócio nunca sabe ao certo onde pode chegar. Estar na Forbes é algo que eu nunca tinha imaginado. De repente, você está no meio daquelas pessoas grandiosas, formadores de opinião em diferentes setores do mercado. O preconceito ainda existe, mas momentos como esse, certamente, trazem esperança para as mulheres e mostram que é possível alcançar seus sonhos”, disse Zica Simões.
Contudo, o caso de Zica ainda é uma exceção e inspiração entre as mulheres negras empreendedoras. As histórias das microempreendedoras têm em seu começo um ponto em comum: as dificuldades de investimentos e a falta de conhecimento. “O início é sempre caótico, por falta de instrução e conhecimento, saímos fazendo tudo e de qualquer jeito, daí quebramos a cara aqui e ali, e vamos ajudando umas as outras, com informações, relatos de experiências ruins, contatos, a coisa vai acontecendo. Mas só percebemos o quanto não sabemos quando estamos a alguns passos a frente e olhamos pra trás. Aí conseguimos ver o conhecimento adquirido em áreas que não fazem parte da história do negro no Brasil, por exemplo administrar. Somos treinados a ter um patrão, a seguir ordens e obedecer. Quando nos deparamos com uma situação que necessita deste tipo de empoderamento, quase sempre não conseguimos resolver”, relata Marçal.
“As políticas públicas necessitam considerar que os empreendedores negros, pela própria situação de racismo, muitas vezes não estão devidamente institucionalizados, ou não preenchem as exigências mínimas para acessar benefícios e recursos oriundos de políticas públicas específicas para este setor. Neste sentido, os critérios precisam mudar para comportar estes novos empreendedores. E o processo de divulgação dos benefícios dos editais tem que levar em conta as especificidades deste empreendedor”, reitera Cida Bento, do CEERT.

No momento de caos, as empreendedoras buscam cursos de formação e com o tempo vem o aprimoramento técnico na área administrativa, gerando ao segmento a necessidade de criar programas voltados ao afroempreendedorismo. “O empreendedor precisa estar bem capacitado para enfrentar as dificuldades e saber quais os melhores caminhos para ter uma equipe qualificada. Em sintonia com esse cenário, o Sebrae vem investindo em ações de capacitação e desenvolvimento de atitudes empreendedoras com a população negra. Em parceria com o Instituto Adolpho Bauer e o Coletivo de Empresários e Empreendedores Negros de São Paulo, lançamos o projeto Brasil Afroempreendedor ano passado. O objetivo é capacitar donos de pequenos negócios em comunidades negras remanescentes de quilombos em 12 estados brasileiros. Além dessa parceria voltada especificamente para os afroempreendedores, oferecemos cursos e palestras, consultorias e informações de gestão para quem já empreende ou para quem sonha em montar a sua empresa”, destaca Luiz Barreto.
Zica Simões, proprietária dos salões da rede Beleza Natural
No âmbito das políticas públicas, a diretora de programa de ações afirmativas da SEPPIR, Mônica Alves, destaca que “a SEPPIR tem buscado atuar em dois eixos – ação afirmativa nas empresas, através de nossa participação no Programa Pró-Equidade de Gênero e Raça, em parceria com a Secretaria de Políticas para Mulheres (SPM) e no incentivo às ações afirmativas nas políticas e programas de empreendedorismo”. O Programa Pró-Equidade de Gênero e Raça, coordenado pela Secretaria de Políticas para Mulher, existe desde 2005, e tem como objetivo promover a igualdade de oportunidades e de tratamento entre homens e mulheres e entre negros e não-negros nas organizações públicas e privadas e instituições por meio do desenvolvimento de novas concepções na gestão de pessoas e na cultura organizacional. As empresas que aderem ao Programa se comprometem a elaborar e desenvolver um plano de ação com atividades para diminuir as desigualdades de gênero e raça em sua instituição. O Programa está atualmente na sua 5ª edição e, somente na última, já beneficiou 900 mil trabalhadores e trabalhadoras, direta e indiretamente”, completa Tatau Godinho, da SPM.
“Por outro lado grandes empresas, bancos e o próprio estado brasileiro necessitam colocar o dado cor em seus cadastros de fornecedores, de modo a perceber que negros não estão inclusos neste cadastro e, portanto, não tem a chance de prestar serviços para grandes organizações”, destaca Cida Bento.
Embora algumas ações estejam sendo feitas no âmbito privado e federal para capacitação e geração de oportunidade para o afroempreendedor, vale destacar que a ausência de dados que especifiquem e apontem com exatidão o atual quadro do afroempreendedorismo dificulta que se compreenda a real influência do segmento no mercado e na economia.
“Eu sinto falta de uma pesquisa mais consolidada para mapear de fato a realidade empreendedora entre os negros no Brasil. Temos o crescimento, mas ele ainda é invisível pela falta de pesquisas e publicações no tema. Apenas nos últimos 3 a 5 anos esse tema está mais visível para algumas agências do governo, mas é invisível para a iniciativa privada. Precisamos saber qual o percentual de negros que estão empreendendo hoje, quais os segmentos e qual a panorama desse mercado. Esse diagnóstico fará toda a diferença na luta desigual entre brancos negros que empreendem. O que posso afirmar, por experiência própria é que a desigualdade existe e está presente todos os dias. Seja pela falta de financiamento, seja pela falta do capital de giro, seja pela falta de informações que os mantenham competitivos no mercado. Se não existisse essa desigualdade, não existiriam hoje ações afirmativas do governo e outras agências de apoio ao empreendedor, para ajudar a combater a discriminação racial”, relata Adriana Barbosa, da Feira Preta.
Feira Preta, o maior encontro de cultura negra da América Latina

Empreendimentos em prol da identidade e autonomia A trajetória histórica da mulher negra tornou-a sinônimo de guerreira. Acostumada a gerir casa, gestar e cuidar da família, enveredar para o empreendedorismo é o fluxo e extensão da ordem natural para algumas, já que ser a mantenedora emocional e material da casa nunca foi uma novidade para maioria das pretas brasileiras. A maioria dos empreendimentos femininos surge da necessidade de afirmação e construção da identidade.
Foi assim com um das principais e mais influentes empreendedoras negras da atualidade, Zica Simões, ex-empregada doméstica e criadora da rede de cuidados com os cabelos afro Beleza Natural. “O Beleza Natural surgiu quando eu procurava fortalecer minha imagem, buscando melhorar o visual dos meus cabelos que sempre foram muito crespos e sem maleabilidade. Fui estudar para ser cabeleireira porque acreditava que, conhecendo meu fio, poderia fazer alguma coisa para melhorar minha situação – não me conformava em ter de alisar os cabelos para ficar com um aspecto razoável. Passei dez anos estudando o fio crespo e misturando e testando cremes e produtos com o intuito de me dar aquele visual sonhado: cabelos naturais, cheios de cachos, com brilho, maciez e beleza. Quando cheguei à fórmula que deu aos meus cabelos mais maleabilidade, além de ficar extremamente feliz com o resultado, percebi que poderia levar essa solução para várias pessoas da minha comunidade, todas com um problema similar ao meu. Assim surgiu o primeiro salão Beleza Natural, na Tijuca, no Rio de Janeiro, aberto em 1993”, lembra a empresária.
Após serem furtadas num arrastão, Adriana Barbosa e Deise Moysés, que trabalhavam vendendo pasteis e roupas de brechó na feira, perceberam que estava na hora de mudar o rumo da história: “Decidimos criar a nossa própria feira. Foi ai que surgiu a Feira Preta, em 2002, com a proposta de reunir no mesmo espaço comércio e cultura. Nesses últimos anos a Feira se transformou no maior encontro de cultura negra da América Latina. Une cultura e comércio de produtos afro-étnicos. Desde o seu surgimento, a Feira é realizada anualmente, com o forte objetivo de difundir costumes e tradições da cultura negra e fomentar negócios entre empreendedores da comunidade negra. Em onze edições do evento, a Feira Preta já reuniu 500 artistas, 600 expositores, mais de R$ 3,5 milhões de circulação monetária e 100 mil visitantes. Em 2009, foi criado o Instituto Feira Preta, que celebra o movimento cultural de coletivos que se dedicam à temática negra e reúne informação sobre vários artistas, em diferentes linguagens, funcionando como uma base de dados e divulgação de eventos, iniciativas, exposições, performances”, explica Adriana Barbosa, criadora da Feira Preta.
Prestes a lançar a sua primeira coleção de acessórios feitos com tecidos africanos, a atriz e empreendedora Débora Marçal já faz da sua marca Preta Rainha um negócio de sucesso com público fidelizado. “A ideia é criar um estilo que ofereça a possibilidade de outro conceito de beleza, diferente do padrão que temos há anos, onde nem todas as mulheres são privilegiadas. Crio peças que pensam o corpo, o cabelo e a vestimenta como uma manifestação da forma de cada individuo ser e se manifestar no mundo. O que busco é valorizar o que cada um traz de mais autêntico: a textura da pele, do cabelo, formato do rosto, tudo em composição com as geometrias das estamparias africanas, aumentando e fomentando a autoestima das mulheres brasileiras, em especial a mulher negra que não está dentro de nenhum padrão na mídia”, explica Marçal.

“Há mais de 20 anos lutamos pela valorização do cabelo crespo. Na época em que comecei a pesquisar, o mercado só oferecia alisamentos, henês, pastas. Nada que valorizasse verdadeiramente o cabelo crespo e cacheado. Hoje melhorou um pouco e a indústria cosmética, com a ajuda da mídia, com atrizes assumindo os cachos, está começando a dar mais valor aos cabelos crespos”, observa Zica Simões.
Embora a presença majoritária das mulheres empreendedoras (negras ou não-negras) esteja relacionada às atividades de comércio e serviços, Luiz Barreto, presidente do SEBRAE, ressalta que “empreender no setor de serviço não é negativo, não representa um demérito para o empresário. De um modo geral, as atividades do setor de serviços são dominantes nas economias fortes”.
Por outro lado, a diretora executiva do CEERT, Cida Bento pondera que “estar nos serviços mais desprestigiados e nos quais os salários são menores é o grande problema. E isto é fruto da conexão mulher, negra e pobre. Ressignificar na mídia o lugar da mulher negra como especialista, executiva, cientista pode ajudar a alterar o imaginário que só enxerga a mulher nos piores nichos. O próprio governo, que é quem mais despeja recursos nas agências de propaganda, pode definir que só contratará serviços de empresas que valorizem todos os segmentos sociais”.
Débora Marçal, dona da marca de acessórios feitos com tecidos africanos Preta Rainha
Mais do que difundir produtos na mídia, a necessidade de se criar espaços que explicitem esse novo mercado pode fomentar a competitividade, o conhecimento e acesso aos produtos voltados à identidade afrobrasileira. Para Adriana Barbosa, “a mídia precisa entender o conceito da diversidade também como um valor competitivo. No Brasil existe um grande percentual de mulheres negras com poder de compra, que não se enxergam representadas em muitos produtos segmentados. Eu particularmente deixo de comprar algo que me agrida na comunicação, ou que não traduza a minha especificidade em seus rótulos. Mas também acredito que hoje é muito difícil passar despercebido. A sociedade está mais atenta aos absurdos, eu digo a sociedade porque não é uma vigilância só da comunidade negra, mas de todos”.
Outro aspecto importante dos empreendimentos geridos por “pretas” é a intimidade com o cliente. A maioria dos negócios não buscam apenas alavancar e expandir as vendas ou lojas, querem dar ao cliente um tratamento diferenciado e personalizado. “Nós atendemos 100 mil clientes por mês só para fazer o tratamento relaxante que não tem formol, e tudo isso com muita luta e força de vontade, mas, isso só não basta. É importante conhecer o seu cliente, seus problemas, o que ele deseja. Quando fundamos o primeiro salão Beleza Natural, conhecíamos muito bem os problemas que cada um de nossos clientes vive: uma batalha com o próprio cabelo, baixa autoestima, dificuldade para relacionar-se profissional e socialmente. E isso fez toda a diferença”, Zica Simões.
“É importante que essa mulher ou homem se sinta visto, cuidado e escutado. Durante muitos anos fomos invisíveis para sociedade e nos tornamos invisíveis para nós mesmos, agora podemos nos ver e saber que temos pares. Eu só passo a existir e me achar bonita ou feia quando eu encontro meus pares, se eu não os encontro, nem existo. Para nós, o que não falta é referência positiva de beleza negra, mas o que se veicula é apenas um modelo, que de tanto se repetir torna-se padrão”, destaca Débora Marçal.

A soberania dos cachos 

A dez minutos do metrô Patriarca, na zona leste de São Paulo, os 40 metros da sala, que para os olhos desavisados não passa de um salão de beleza comum, guardam uma história de luta familiar e o início de uma trajetória de sucesso. Vestidas de preto e amarelo, maquiadas e com cabelos transados, Sandra Antonia (63), Shirley Lella (39) e Sheila Dourado (36) relembram a história da Makeda Cosméticos, empreendimento que desponta no mercado dos cabelos afro no Brasil, Nepal e Angola.
O empreendimento familiar deriva do trabalho de vinte anos da matriarca Sandra Antonia, que ao se separar do pai das filhas, se viu com a força necessária para lutar e reescrever a história. “A gente se acostuma com a violência, acostumamos a não sermos vistos. Nós, negros, não nos vemos. Quando me separei, fui morar no porão de uma empresa de engenharia com as minhas filhas. Fui tudo quanto é eira: costureira, faxineira, cozinheira... até que virei cabeleireira”, brinca. Em 1992, Sandra tornou-se consultora de cosméticos para uma empresa norte-americana, especializando-se em cabelos crespos.
Levada pela matriarca, Shirley Leela, após trabalhar como copista em escritório de arquitetura, ingressou no mundo dos cosméticos para cabelos afro: “A gente experimentava e sabia o que era e o que não era bom para o cabelo crespo ou cacheado. Isso nos ajudou a nos fortalecer enquanto mulheres negras”.
Seguindo o exemplo da mãe e da irmã, Sheila Dourado, aos 17 anos, também enveredava no mundo como técnica-capilar. “Também sou atriz, mas sempre trabalhei como cabeleireira atendendo nas casas das clientes. Saia da sala de ensaio, pegava a malinha e atendia até de madrugada”.
Durante doze anos as três montaram o primeiro negócio, o salão Arte Axé, no bairro do Tatuapé, onde atendiam mais de 600 clientes por mês. Ao fechar este primeiro salão, as três continuariam atendendo como cabeleireiras e consultoras. “Na nossa vida as coisas sempre foram acontecendo, tivemos muita sorte e recebemos muitos presentes ao longo da nossa história, que sempre foi de muita luta. Um dia recebi um e-mail sobre vagas na equipe de produção do Cirque Du Soleil, enviei o currículo e fui chamada. Naquele momento, sabia que alguma coisa estava para acontecer. Fui morar no apartamento de uma amiga que havia viajado e me dividia entre o trabalho no circo e os atendimentos na casa das clientes”, relembra Shirley.
Sheila, Sandra e Shirley, proprietárias da Makeda Cosméticos
Foi numa madrugada que a caçula teve um insight para a criação da Makeda Cosméticos. “Cheguei para minha mãe e irmã, falei que tinha um investidor e que criaríamos os produtos para cabelos crespos e cacheados. Elas me olharam e toparam. A Shirley havia sido mandada embora da empresa de cosméticos e tinha contato com laboratórios, não tinha erro”. O que Sheila não contou para família é que a investidora era ela. “Peguei o cachê dos três meses de trabalho no Cirque e investi na criação dos primeiros produtos. Testamos em nossos cabelos, nas amigas e no meu sobrinho, o Ryan. Aos poucos fomos chegando à fórmula que temos hoje, Coconut-terapia”, explica Sheila.
O empreendimento recebeu o nome da rainha etíope Makeda, conhecida como a Rainha de Sabá, presente na cosmogonia dos povos hebreus, islâmicos e etíope. Ela é lembrada por sua beleza e elegância. “Quando vi a sua imagem e soberania, tive certeza de que estávamos no caminho certo e que a Makeda era um reinício para nossa história”, afirma Sheila. Nas palavras da matriarca, “eu sempre soube que teríamos algo nosso e que ajudaríamos a comunidade negra a se enxergar”, relata Sandra.
Com menos de dois anos no mercado, a Makeda Cosméticos atende mais de trezentas clientes, aos poucos ganha o território brasileiro e o mundo. “Nossas clientes nos procuram, indicam pessoas de outros estados e países, temos clientes que levam os nossos produtos para Angola, Nepal, Salvador, Rio de Janeiro...”.
Pensando na expansão da marca, as três se preparam para dar o curso de formação e especialização em cabelo afro. “Falta conhecimento e intimidade com o nosso cabelo. O nosso intuito é restabelecer essa conexão com o cabelo, com a nossa história. Nos fizeram acreditar que éramos feias com falas e produtos que não são próprios, que agridem ainda mais o nosso cabelo, o nosso corpo. Hoje podemos construir uma nova história, com produtos feitos e pensados por nós, mulheres negras”, finaliza Sheila.

10 DICAS DE ZICA SIMÕES 
1. Corra atrás do seu sonho;
2. Não desista. Mesmo com todas as dificuldade;
3. Entenda bem e goste muito do ramo no qual pretende atuar;
4. Estude, busque novos conhecimentos e pesquise o mercado;
5. Tenha muita determinação e força de vontade;
6. Procure profissionais que te ajudem e tenham conhecimento em diversas áreas;
7. Junte-se a pessoas competentes e do bem;
8. Procure ajudar as pessoas à sua volta por meio do seu trabalho;
9. Não perca o foco;
10. Conheça o seu cliente.




O ESTUDO COMO EMPREENDIMENTO

Ela é doutora e ativista do movimento negro e jovem. Aos 33 anos, Marcilene Garcia de Souza, a Lena, recebeu o título de doutora pela UFPR com o apoio da Fundação Ford, tornando-se referência entre os jovens negros que ingressam na universidade paranaense
por Maitê Freitas


Marcilene Garcia de Souza, Lena para os amigos, hoje tem 37 anos. Em 2010, foi a primeira mulher negra a receber o título de doutora pela Universidade Federal do Paraná. Mudando o curso e o estigma de uma menina nascida em família pobre, no interior do Paraná, Lena viu nos estudos a oportunidade de mudar o caminho que para muitos negros é destino fadado, pelo menos nas estatísticas. “Minha mãe sempre disse: ‘quer vencer na vida? Estude’. Então eu estudei, não faltava na escola, caminhava 11 km numa estrada de terra escura para voltar para casa. Estudar foi o meu empreendimento”, diz.
Filha caçula de uma família de nove irmãos, Lena foi a primeira a fazer universidade e obter título acadêmico. “Não me vejo privilegiada. Numa sociedade racista e cheia de obstáculos sociais, consegui burlá-los. Eu me sinto muito comprometida em fazer mais e melhor para população. O que me faz lutar é a certeza do meu compromisso com os nossos antepassados negros que foram assassinados, humilhados e torturados neste país por mais de 350 anos. São as lembranças deste passado que sempre me moveram para o futuro”.
A educação sempre foi um norte e o solo para que as raízes de Lena amadurecessem. Nos diálogos de amor, como costuma chamar os momentos sentados em círculo na companhia do pai, recebia os primeiros princípios de respeito e solidariedade. “Meu pai era um contador de histórias. Ele foi autodidata, aprendeu a ler e a escrever sozinho, deu aula e alfabetizou outras pessoas. Sempre sentávamos em círculo para ouvir suas histórias, que nos ajudaram a compreender o ser humano. Apesar de não ter luz e livros em casa, eu e meus irmãos ousávamos, lendo bula de remédio, pedaços de revista e a Bíblia. Escrevíamos no chão e na areia da praia em Itapoá (SC). Contávamos o número de plantas e frutas no quintal, ouvíamos histórias e músicas antigas. Percebi, posteriormente, que aquela forma de educar continha signos da história dos nossos antepassados negros, sobretudo quando se refere a uma educação voltada para olhar o todo, respeitando os mais velhos, os animais e as plantas”.
Quando questionada sobre o título de ser a primeira doutora negra da faculdade de sociologia da UFPR, Lena deixa de lado a emoção e a memória para ser enfática sobre compromisso e responsabilidade social. “O mérito da titulação é importante para a população negra, possibilita a ocupação de espaço e garante a diversidade do olhar numa educação fundamentada em conceitos eurocêntricos. Para mim, o título acadêmico é sinônimo de responsabilidade e compromisso com a multiplicação do saber e do olhar para diversidade étnico-cultural afrodescendente”.
A doutora, que no passado vendeu doces caseiros e mandioca para custear o transporte e garantir presença na sala de aula, hoje se pauta no compromisso e na responsabilidade de ser referência perante a comunidade afro e na militância dentro do movimento negro paranaense. Lena criou o IPAD (Instituto de Pesquisa da Afrodescendência), que desenvolve projetos de ações que fomentam a educação do negro no meio universitário. “Muitas vezes, a gente consegue entrar na universidade, mas não consegue permanecer por falta de dinheiro. Já hospedei orientandos na minha casa para incentivá-los a permanecer no curso. O desafio é criar ações afirmativas que vão além da ação afirmativa”, diz.
Há um ano em São Paulo, Lena leciona no curso de direito da Faculdade Zumbi dos Palmares e é coordenadora geral da coordenação de ações afirmativas da Secretaria Municipal de Promoção da Igualdade Racial de São Paulo, a SMPIR. “Acabamos de ter sancionada a lei de cotas para negros em concursos públicos e cargos comissionados no município, isso é um feito para a comunidade afropaulistana. Aos poucos vamos construindo uma nova história de oportunidades. Nós, negros, queremos e precisamos ser protagonistas de nossas histórias, de nossas esperanças”.
Quando questionada sobre as áfricas que lhe habitam, Lena fica em silêncio e surpresa com a pergunta. Mas sua resposta não tarda: “A África da responsabilidade com os meus ancestrais. Quando li “Negras Raízes “(Alex Haley) lembro-me de não conseguir sair do capítulo que descrevia as memórias do navio negreiro. Eu chorava e paralisei diante daquela narrativa. Hoje, a África que me habita é aquela que honra os ancestrais e sabe que não está sozinha”, conclui.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Árbitro vítima de racismo pensa em se aposentar após apitar final do Gaúcho - Globo Esporte

Márcio Chagas da Silva no Gre-Nal (Foto: Diego Guichard/GLOBOESPORTE.COM)

Mesmo aos 37 anos, Márcio Chagas da Silva pode largar o apito. A ideia foi levantada pelo próprio árbitro após a decisão do Gauchão, vencida pelo Inter por 4 a 1 neste domingo. Apertado entre a porta que dá acesso ao seu vestiário e rodeado de microfones, Chagas promete avaliar para ver se há "empolgação" para seguir a carreira após sua denúncia de caso de racismo no estadual. Uma das possibilidades pode ser o comentário esportivo.
- Eu vou fazer uma reflexão na próxima semana. Para ver se ainda há empolgação para continuar isso aí. Não pelo fato em si (racismo), mas a questão da impunidade me faz refletir algumas coisas - disse Chagas.
Márcio conta que o sua grande decepção se deu com a defesa do Esportivo, que tentou provar que ele estava mentido sobre as fotos das bananas em seu carro. No entanto, se sente recompensado pelos aplausos recebidos pela torcida no Gre-Nal.
- Ser chamado de mentiroso... Tudo foi um desgaste muito grande, para minha família também. Como se eu tivesse forjando algo. Eu estava incrédulo com o tribunal na quinta-feira, mas  tenho a esperança de que alguns valores serão resgatados - afirmou. - O aplauso que recebi fez tudo valer a pena.
Tudo começou há pouco mais de um mês, quando Chagas trouxe à tona o polêmico assunto ao avistar seu carro ornado de bananas até no cano de descarga, após o jogo entre Esportivo e Veranópolis, em 5 de março, no qual também fora alvo de insultos dessa espécie durante o confronto. 

Apresentador do SBT é detido por racismo em final do Paranaense - UOL ESPORTES

Lourival Santos, apresentador do SBT de Maringá, teria chamado jogador de macaco

O apresentador do SBT de Maringá, Lourival Santos, foi detido por racismo na final do Campeonato Paranaense, em Maringá, entre o clube local e o Londrina. Santos teria ofendido o lateral direito do Londrina, Maicon Silva, ao chamá-lo de macaco.
A ofensa foi ouvida pela jornalista Monique Vilela, da Rádio Banda B, que foi autora da denúncia. O xingamento teria ocorrido após o gol do Londrina, que abriu o placar no estádio Willie Davids.
Lourival Santos foi levado para a delegacia para prestar depoimento, juntamente com a jornalista que testemunhou e denunciou o fato.
Isaías Bessa, presidente da Associação dos Cronistas Esportivos do Paraná, explicou o que aconteceu. "Ele estava devidamente credenciado pela emissora dele que é do SBT aqui de Maringá. No exato momento que saiu o gol, ele correu junto com os jogadores e, segundo as informações que foram passada, ele chamou o jogador de macaco. A nossa companheira de Curitiba, a Monique Vilela (repórter da rádio Banda B) estava do lado, ouviu, se irritou com isso, levou ao meu conhecimento, levamos ao conhecimento do tenente. Ela se prontificou a fazer a denúncia contra ele, ele foi detido. O que ficou mais chato foi que ele tentou esconder o colete de imprensa dentro do vestiário do Maringá. Nós trancamos as saídas de imprensa, ele não teve como sair e foi obrigado a devolver o colete", falou Bessa em entrevista ao SporTV.
Procurado pela reportagem, o delegado Clóvis Galvão, da Polícia Civil do Paraná, confirmou o ocorrido.
"Houve um caso de racismo envolvendo o radialista. Estou em Curitiba, mas soube que ele foi encaminhado para a delegacia em Maringá", afirmou.
UOL Esporte entrou em contato com a subseção de Maringá da Policia Civil do Paraná, mas foi avisado de que ainda não seria possível obter mais informações.
A Rede Massa, afiliada do SBT, publicou nota oficial repudiando o incidente e afirmando que é contrária a todo e qualquer ato de racismo. Na publicação, a emissora já comunica o afastamento de Lourival Santos. Veja a nota na íntegra:
Sobre o incidente envolvendo o apresentador Lourival Santos neste domingo em Maringá, a  Rede Massa esclarece que:
1) A emissora repudia e condena todo e qualquer ato de racismo, um delito abjeto que não pode ter abrigo em qualquer circunstância.

2) A Rede Massa não responde pelo ato de seu colaborador e espera rigor nas investigações por parte das autoridades competentes para elucidar o caso, inclusive quanto a eventual processo criminal.
3) O colaborador Lourival Santos já foi afastado de suas atividades na TV Tibagi / Maringá.

4) Por fim, a Rede Massa  reitera o seu compromisso de melhor informar o telespectador paranaense e espera que esse incidente seja definitivamente esclarecido.
Curitiba, 13 de abril de 2014.
Diretoria Rede Massa

Neymar é alvo de racismo após derrota, diz jornal - Yahoo Esportes

Neymar foi vítima de ofensas racistas na Espanha.

Após a decepcionante derrota do Barcelona para o Granada, no sábado, a torcida do clube catalão recepcionou o time com ofensas racistas, em especial ao atacante Neymar. Segundo o diário espanhol As, foram feitos gestos e gritos imitando macacos.
Além do atacante, o goleiro Pinto, substituto do machucado Valdés, foi alvo de diversas ofensas. Entre palavrões e xingamentos, torcedores criticaram os jogadores porque estariam pensando somente na Copa do Mundo, relegando os torneios disputados pelo Barcelona ao segundo plano.

Ao ser derrotado pelo Granada por 1 a 0, fora de casa, o Barcelona se complicou na briga pelo título do Campeonato Espanhol. Estacionou na tabela, com 78 pontos, e ainda no sábado caiu para o terceiro lugar ao ser superado pelo Real Madrid. O arquirrival chegou aos mesmos 79 do Atlético de Madrid, que poderá abrir mais vantagem neste domingo.

As ofensas racistas a Neymar não é a primeira no Barcelona. Em março, torcedores do Espanyol também imitaram macacos e atiraram bananas em campo na direção do atacante e do lateral Daniel Alves.

A irritação dos jogadores também se deve à eliminação da equipe nas quartas de final da Liga dos Campeões, na quarta passada. Nesta semana, o time catalão terá outro jogo importante. Fará a final da Copa do Rei contra o Real, na quarta. Uma derrota deve instalar definitivamente a crise no clube catalão.

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Terreiro de Pai Dedo em Goiana/PE é Incendiado por vândalos - Crime de racismo e violência religiosa contra a Jurema Sagrada - Alexandre L'Omi L'Odò, Discussões Negras e Indígenas

Carta de repúdio à Intolerância Religiosa contra os terreiros de Jurema em Pernambuco e demais religiões tradicionais de terreiro – Caso do terreiro de Pai Dedo de Goiana:

No último dia 31 de Março de 2014, no passar da noite para a madrugada do dia 1° de Abril, o terreiro de Jurema Tenda do Caboclo Boiadeiro de Tupi Goiá e Ilê Axé Ogum Toperinan, localizado no município de Goiana/PE, foi incendiado criminosamente por pessoas até então desconhecidas. O terreiro foi queimado cruelmente, em um ato evidente de racismo e intolerância religiosa por vândalos que destruíram imagens de mestras e mestras, objetos pessoais e sagrados. A situação do terreiro é alarmante e nada foi roubado do local.

Espero que este caso não seja mais um entre tantos que o Estado Brasileiro não dá suporte devido e nem ajuda a resolver as questões envolvidas, perpetuando a impunidade. Contudo, a criminalização dos casos de racismo e intolerância religiosa tem que se transformarem em metas concretas do Estado para contribuir efetivamente na extinção destes crimes que são cometidos cotidianamente contra a fé do outro de forma livre e inconsequente, talvez por se haver uma compreensão coletiva de que tais crimes não levam ninguém à cadeia. Evidencio que tais crimes ocorrem cotidianamente contra os terreiro de matriz africana e indígena, crimes estimulados muitas vezes por outras religiões que estimulam este tipo de violência contra os direitos humanos.

Imagem do Mestre Zé Pilintra com a cabeça decepada pelos vândalos. Prova de ódio religioso.

Convoco todo povo de terreiro do Brasil e demais religiões que desejam lutar a favor do respeito à diversidade religiosa e lutar conseqüentemente contra a intolerância religiosa para rediscutir este tema recorrente entre nós, e que estas imagens sejam compartilhadas por todos e todas que desejam ajudar na luta contra crimes desta natureza, revelando a face cruel do que é de fato a intolerância religiosa, e que esta destrói vidas e causa traumas profundos em suas vítimas.

Como membro do Comitê Nacional de Respeito à Diversidade Religiosa, saí de Recife para oferecer algum suporte ao juremeiro e babalorixá Pai Dedo, no intuito de compreender o que havia ocorrido em seu templo. Conversamos bastante e ele expôs toda questão e nos apresentou o contexto/panorama deste crime. Foi feito um B.O. (boletim de ocorrência) e a Polícia Militar está encaminhando os processos com empenho.

Porta do terreiro interditada pelos bombeiros. Há risco de desabamento no local. Ainda estão averiguando a situação predial.

Resto dos objetos sagrados do quarto da Jurema que foram atingidos.

Televisão depredada. Não roubaram nada do local. Apenas destruíram o templo.

Quarto onde eram guardadas as roupas do axé e da Jurema. Totalmente destruído.

Cozinha do terreiro totalmente destruída.

Estou chocado com o que vi naquele local. E fiquei muito feliz com a fé que encobre o Pai Dedo, que mesmo tendo seu patrimônio destruído, estava firme em sua fé na Jurema. Um fato impressionante, e que merece destaque, foi que a mesa sagrada da Jurema não foi queimada. Mesmo envolta de fogo, sequer o pano que a cobria foi queimado. Os assentamentos dos mestres e mestras, os troncos de Jurema, os príncipes e princesas etc. Tudo cheio de cinzas, mas inteiros e firmados. Isso nos fortaleceu na esperança de saber que nossos encantados e ancestrais estão ao nosso lado nos protegendo e nos incentivando nesta luta. O Juremeiro também foi orientado a ligar ao DISK 100 para registrar o caso neste espaço de combate aos crimes contra os direitos humanos, e assim foi feito.

Sequência de imagens que mostram como ficou o quarto da Jurema Sagrada após o incêndio. Atenção à mesa da Jurema. Totalmente preservada.




Se a mídia não veicula esta informação, cumpro meu papel de cidadão e disponibilizo fotos e dados para que pelo menos os que por aqui passarem se informarem da real situação do Povo de Terreiro no Brasil.

Mesmo perante a tamanha violência contra o sagrado em seu terreiro, Pai Dedo não perde a fé e continua dizendo que vai reconstruir tudo de novo.

Muito traumatizado com o ocorrido, Pai Dedo lamenta as percas materiais de seu patrimônio, fruto de muito trabalho.

Pai Dedo e eu em momento de reflexão sobre o caso de intolerância religiosa sofrida.

Fachada do terreiro.

Salve a fumaça! O trabalho do Quilombo Cultural Malunguinho está firme e continua com força e fé na luta contra a intolerância religiosa e o racismo! Sobô nirê!

Alexandre L’Omi L’Odò 
Membro do Comitê Nacional de Respeito à Diversidade Religiosa da Presidência da República
alexandrelomilodo@gmail.com

Empresa lança pacote de emoticons negros para celebrar a diversidade - Geledés

Para promover a pluralidade, a companhia Oju Africa lançou um pacote de emoticons negros chamado "afroemojis". A empresa de aplicativos móveis busca dar voz ao povo africano e, com isso, combater a falta de variedade nos ícones de emoção disponíveis em celulares e tablets.
Crédito:Reprodução
emojisafro
Emoticons negros buscam implantar diversidade na web
 
“Nós africanos precisamos de uma voz no mundo moderno de hoje. Uma voz africana que não só entende o caminho africano, mas que suporta todas as nossas diversas culturas e dê vida a todas as nossas emoções”, diz a Oju. Segundo o blog Tec, da Folha de S.Paulo, o conjunto de carinhas pode ser acessado pelos dispositivos que possuem o sistema operacional Android, através do Google Play. Entretanto, a iniciativa já gerou uma petição contra a organização voltada à tecnologia Apple, que possui apenas dois emojis em seu acervo que não são brancos (a face de um asiático e um homem com turbante). Com mais de quatro mil assinaturas, “Apple: Adicione mais Diversidade ao Teclado de Emoji” acredita que “quando se trata de rostos fora dos smileys amarelos, há uma surpreendente falta de representação das minorias”, diz o texto do abaixo-assinado.