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quarta-feira, 23 de abril de 2014

Rio Grande do Sul é exemplo no combate a violência contra mulheres - Geledés

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Com iniciativas como a Patrulha Maria da Penha, o Observatório de dados e a ampliação da quantidade de delegacias especializadas, o Estado do Rio Grande do Sul tem se tornado exemplo quando o assunto é política de prevenção e enfrentamento da violência contra a mulher, segundo Aparecida Gonçalves, secretária responsável por esse setor da Secretaria de Políticas para Mulheres, do governo federal.
"Cada Estado tem uma realidade, tem Estado que a delegacia fecha às 13h. Falta uma cultura, falta mudança de comportamento e cultura do Estado e das pessoas. Falta maior investimento em segurança pública, faltam serviços especializados, juizados, delegacias [da mulher]. Não chegamos a ter isso nem em 8% dos municípios. Falta mudar comportamento e cultura, falta a Lei Maria da Penha funcionar no País inteiro", afirma.
De acordo com ela, essa mudança de comportamento está vindo do sul. As ações que vêm sendo desenvolvidas no Estado desde 2011 foram elogiadas por ela, em entrevista ao iG.
Segundo a chefe de gabinete da Secretaria de Segurança Pública (SSP) do Rio Grande do Sul, Raquel Arruda Gomes, o Estado diminuiu os índices de violência contra as mulheres após 2011, quando a SSP passou a fazer o levantamento dos números da violência.
"Não tinha esse tipo de dados. Após um pedido da assembleia legislativa percebemos que teríamos que dar uma resposta para a sociedade. Pegamos as ocorrências policiais uma a uma e criamos o observatório. Em 2011, eram aproximadamente 40 mil ameaças, 27 mil lesões corporais, 1.300 estupros e 100 femicídios, que são mortes anunciadas. O marido ameaça, insulta, bate e só depois mata. Um trabalho que se pode fazer a prevenção", disse.
De acordo com um levantamento do governo gaúcho que analisou os assassinatos de mulheres em função do gênero, os femicídios, cometidos entre 2006 e 2011, a metade (50,4%) dos casos tem como autor o atual marido ou companheiro; 25,5% são cometidos por ex-companheiros ou ex-maridos; e em 83,48% dos casos, o assassinato ocorre na residência da própria vítima. O estudo apontou ainda que em 41,7% desses casos já havia registros de outros delitos que antecederam o homicídio.
Segundo Raquel, isso acontece porque as delegacias especializadas no atendimento à mulher trabalhavam isoladas do Judiciário e não tinham apoio de outras esferas do próprio governo. "Após a delegada pedir a autorização da medida protetiva [que impede que o agressor se aproxime da vítima], não sabíamos se ela tinha sido autorizada. Não tínhamos acesso aos dados da Justiça. Além disso, não tinhamos garantias de proteção e não havia rede que pudesse complementar ao serviço da delegacia e monitorar o cumprimento das medidas protetivas. Por isso, entramos em contrato com o judiciário e conseguimos acesso aos dados", explicou.
Esse, segundo ela, foi o primeiro passo para fazer o diagnóstico dos números da violência no Estado e criar uma forma de proteger a mulher que já procurou uma delegacia especializada, já denunciou o agressor e mesmo assim, é agredida novamente ou até mesmo assassinada.
Assim foi criada a Patrulha Maria da Penha, com equipes da Brigada Militar destacadas para visitar periodicamente vítimas de agressão e garantir que as medidas protetivas sejam cumpridas. A princípio foram criadas quatro equipes apenas na capital, Porto Alegre. Hoje são 13 (também em outras cidades) e a expectativa é que sejam criadas mais 20 equipes até o fim do ano.
Outra frente importante, segundo Raquel, foi a criação das salas Lilás, em 13 Institutos Médicos Legais (IML) do Estado, voltadas exclusivamente para mulheres.
"As mulheres são mais de 70% dos atendimentos dos postos médicos legais, mas não tinham um olhar para ela. Quando elas tinham que procurar o serviço, ficavam até na mesma sala do agressor. Havia também problema na coleta de material, no caso do estupro, e não havia padronização no procedimento, o que trazia prejuízo para identificar a autoria", diz.
Mas o trabalho não pode ser voltado apenas para mulher, tem que envolver a sociedade e o agressor, diz ela. Por isso, o Estado, por meio da Coordenadoria Penitenciária da mulher, também oferece um trabalho de combate a reincidência, com conscientização no presídio e monitoramento após do agressor ser solto.
As iniciativas foram reconhecidos pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) neste ano, que premiou o Estado na categoria 'Governante: A Arte do Bom Governo'.
Além do prêmio, o Estado vem vendo os números da violência contra a mulher caindo. Segundo dados do governo, o número de femícidios, caiu de 102, em 2012, para 92 no ano passado, os estupros caíram de 1.331 para 1.162, lesão corporal tiveram queda de 27.145 para 25.964 no ano passado.
Outros Estados
Apesar das quedas no número de violência no Rio Grande do Sul, Aparecida Gonçalves, do governo, diz que, no geral, o Brasil ainda está muito atrasado em relação ao tema. Estados, como Alagoas, que ela definiu como "complicado", por ter uma rede de atendimento à mulher vítima de violência frágil, e o Espírito Santo, por concentrar a maior quantidade de assassinatos de mulheres em proporção ao número de habitantes do País, segundo o Mapa da Violência, são lugares que demandam bastante atenção por parte dos governos.
No Espirito Santo, segundo o Mapa da Violência- Homicídio de Mulheres no Brasil, de 2012 (o mais recente),175 mulheres foram mortas em 2010 - taxa de 9,8 assassinatos para cada 100 mil habitantes. De acordo com Leonor Araújo, subsecretária de Movimentos Sociais da Casa Civil do Espirito Santo, 60% desse total foram causados por violência doméstica. "É um crime difícil [de combater] porque o acesso é difícil e a polícia não pode interferir diretamente, a não ser que tenha uma denúncia", disse. Segundo ela, a própria vítima de violência não denuncia por medo do agressor, que na maioria das vezes é o marido (ou companheiro), por uma "questão cultural", que favorece o machismo, por dependência financeira, e por desconhecimento em relação aos próprios direitos.
"As causas [para o medo de denunciar a agressão] geralmente são a falta de qualificação profissional, que causa a dependência financeira, e faz com que ela fique em um casamento violento. Ela também tem medo de se separar do marido e perder a guarda dos filhos. A pouca informação contribui para violência. A mulher não sai desse ciclo e não denuncia. Quando ela chega na delegacia, está há anos sofrendo violência", diz Eleonor.
Ela admite que o Estado tem políticas frágeis de combate à violência contra a mulher (inclusive no levantamento de dados sobre o assunto) e que a cultura "predominantemente machista do capixada" favorece o grande número de assassinatos de mulheres. Mas diz que está o Estado está trabalhando para ampliar a rede de proteção às vítimas.
"Estamos ampliando o número de delegacias especializadas, qualificando policiais para trabalhar com esse tipo de público, criando um centro especializado para atendimento à mulher vítima de violência, que deve ser inaugurado até novembro, com psicólogos, assistentes sociais, pedagogos e cientistas sociais, além de um trabalho com os homens agressores em dois presídios do Estado".
Em Alagoas, também citado pela representante do governo, segundo colocado no ranking de Estados com mais mortes de mulheres, 134 mulheres foram assassinadas em 2010 (8,3 para cada 100 mil habitantes).
De acordo com Solange Albuquerque Viegas, superintentende de Promoção dos Direitos e de Politicas para Mulheres da Secretaria de Estado da Mulher, da Cidadania e dos Direitos Humanos, 70% dos assassinatos de mulheres são em decorrência da violência domestica e 30% são em decorrência do envolvimento com tráfico de drogas e por causa da violência urbana, como assaltos e balas perdidas. Ela diz que o Estado vem trabalhando uma mudança de mentalidade das próprias mulheres para que elas denunciem a violência sofrida.
"Precisamos de mais campanhas informativas e educativas. Em março fizemos uma na televisão com inserções por uma semana. O objetivo é trabalhar junto às mulheres para que elas sejam menos violentadas e que elas denunciem. Nossa perspectiva é que dimunua o número de mulheres violentadas e que eliminemos o número de mulheres mortas neste contexto", diz.
Violência contra a mulher no Brasil
Segundo o Mapa da Violência 2012 - Homicídios de Mulheres no Brasil, de autoria do sociólogo Julio Jacobo Waiselfisz, o País é o sétimo no ranking mundial de assassinatos de mulheres, com uma taxa de 4,4 homicídios em 100 mil mulheres.
Ainda de acordo com o estudo, que analisou 70.270 ocorrências de violência contra mulheres registradas no Sistema Nacional de Atendimento Médico (Sinan) em 2011, a maior parte das ocorrências (71,8%) acontecem dentro da casa da vítima. O estudo indicou que o conjuge foi o autor em 27,6% dos casos de agressão. Esse percentual sobre para 49,3% das ocorrências, no caso de mulheres entre 30 e 39 anos que sofreram agressão física em 2011.
Além disso, o estudo indicou que a violência física é prepoderante, englobando 44,2% dos casos. A psicológica ou moral representa 20,8% dos casos, enquanto a violência sexual é responsável por 12,2% dos atendimentos.

Faustão diz que bailarina de Anitta tem "cabelo de vassoura de bruxa" - Geledés

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Faustão recebeu a cantora Anitta no Domingão do Faustão do último domingo (20) e relembrou o episódio em que uma das dançarinas da cantora denuncia sobre sentir o pum de Anitta na van. A tal bailarina é Arielle Macedo, a quem Faustão se referiu como aquela que tem "cabelo de vassoura de bruxa".
Teve gente que nem reparou, teve quem achou tranquilo, apenas mais uma das brincadeiras do apresentador, mas teve quem se ofendesse com o apelido. A página no Facebook Cacheando em Salvador postou uma imagem da bailarina, com frases de indignação pelo episódio e o link do vídeo, que você confere aqui.
"No programa de hoje, no domingão do Faustão, o apresentador Fausto Silva, destilou todo seu racismo contra uma das dançarinas da cantora Anitta, a Arielle Macêdo. Não aceitamos mais que nos seja imposto os padrões eurocêntricos de beleza! Não iremos tolerar que racismo seja reproduzido em nenhum ambiente e em grande mídia então. Não aceitaremos mais que nos "eduquem" para sermos racistas!", diz o texto. 

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Sobre alisamento capilar, racismo e liberdade por Rebeca Nascimento - Blogueiras Negras

Quero falar sobre alisamento com quem ainda alisa o cabelo. Acredite, você não é melhor nem pior que ninguém por causa disso e talvez só te falte conhecimento sobre a agressividade que você ainda pratica contra si mesmx. Um pouco de vontade de entender e guarda baixa e eu prometo que a compreensão se tornará fácil. Sei que existe uma parcela considerável de meninos que praticam alisamento nas madeixas, mas a opressão acontece com mais vigor pra cima do gênero feminino. Alisei os cabelos por 14 anos que me fizeram ter propriedade pra falar sobre essa rotina capilar opressora. Você sabia que o padrão de cabelo liso é europeu e nos é imposto? Sim, observe quantos salões brasileiros oferecem todas as formas de alisamentos possíveis e vivem lotados de meninas buscando tratamentos ilusórios para seus cabelos crespos.
A simbologia que isso nos trás é a de que: negue, alise sua raiz, aquele seu fio crespo que está começando a nascer resistente a quem te impõe o liso, é muito feio. O esconda. Você não consegue perceber isso, pois a mesma lógica opressora te faz responder que isso não é racismo, não é preconceito consigo mesma e que você só alisa o cabelo, pois é mais prático ou por que combina mais com você. Eu sei disso, visto que era a desculpa que eu sempre usava pra não reconhecer o quão errado e chato é se negar. Como é frustrante perceber que seu cabelo nunca vai ser igual aos anúncios racistas e que os produtos utilizados para alisar o seu cabelo só o detonam cada vez mais. Como acaba sendo cruel consigo mesma não dar visibilidade àquilo que é bonito. Sim, cabelos crespos são lindos, moça.
Eu concordo e defendo a bandeira de que o corpo é seu e de que você tem o direito de fazer o que quiser com ele, mas, por favor, reflita antes de tudo: O que você tem feito é por que você quer? Se você quer, o que te motiva a isso? Se no final, a resposta te levar a um padrão de opressão, tá tudo errado. Acredito que o mesmo vale pra quem tem o cabelo liso ou encaracolado e quer a todo custo “baixar” o volume. Quem foi que te disse que o volume precisa ser baixo? O alto é muito mais divertido. Não acredite que você precisa recorrer a produtos esdrúxulos periodicamente pra ter um cabelo legal. O padrão racista adotado na indústria cosmética não quer que você resista ou perceba o quanto ela oprime a nossa identidade.
O período de transição não é fácil, eu ainda estou nele, mas a delicia de sentir cada centímetro crescendo e dando volta é muito gratificante. Você se redescobre e se descobre diferente de quem ainda precisa correr da chuva, de quem ainda precisa ir ao salão pra esconder a raiz, de quem ainda estica e puxa no secador, de quem liga a chapa pra fritar o cabelo, de quem se nega e não resiste à opressão, você se descobre diferente de quem quer ser igual. Talvez um dia todas prestem atenção no racismo sutil e ainda forte por trás da indústria que ainda insiste em nos encaixar em um padrão que não nos visibiliza. Mas juntas, somos e seremos ainda mais fortes. Força e liberdade pra dentro e fora da cabeça.

Movimento se omite, diz idealizadora do "Paixão de Cláudia" - Afropress

Na mesma semana em que o cineasta carioca Flávio Leandro fez críticas contundentes a omissão de entidades e a órgãos públicos, segundo ele, omissos e ausentes em relação às demandas da população negra brasileira, a artista plástica, pesquisadora e educadora, Renata Felinto, uma das idealizadoras da manifestação “Paixão de Cláudia” que acontece nesta sexta-feira da Paixão (18/04), em S. Paulo, disse que o movimento negro ligado a partidos e grupos de poder "possui discursos e ações que estão distantes das realidades dos negros e negras” e que as ações como a que será promovida “só parece possível para quem não tem vínculos partidários”.
Quando perguntada que entidades estão apoiando o ato de protesto em homenagem a Cláudia Ferreira, a mulher da favela da Congonha, no Rio, morta no mês passado e arrastada por uma viatura por policiais, ela respondeu: “Nenhuma”.
E acrescentou: “Nós estamos patinando, estamos na lama (...). Estamos no “salve-se quem puder”, cada um vendo o que interesse à sua entidade, que alianças podem ser feitas para beneficiar a si próprios, o que se ganha e se recebe em troca de determinados favores, um trabalho que não está sendo pensado para a população negra, salvo raras exceções. Precisamos de líderes, de pessoas que não tenham receio de quebrar com seus partidos (...) que a bandeira seja a nossa ancestralidade que não pensem em se autobeneficiar, que estejam lá por todos, românticamente por idéias e avanços”, destacou.
A manifestação, de caráter político-cultural, que está sendo convocada pelas redes sociais e no boca à boca, acontece a partir das 14h, com concentração em frente à Igreja Nossa Senhora da Consolação, na Avenida Consolação, terminando em frente à Igreja Nossa Senhora do Rosário dos HOmens Pretos, no Largo do Paissandu, onde está a estátua em homagem à Mãe Preta. Os participantes estão sendo convidados a se vestirem de preto e a carregarem rosas verlhas.
Felinto é artista visual, pesquisadora e educadora, doutoranda em Artes Visuais pela Unesp, com formação em Curadoria e Museus de Arte pela Universidade de S. Paulo (USP). Foi educadora e coordenadora do Núcleo de Educação do Museu Afro Brasil.
Veja, na íntegra, a entrevista concedida ao jornalista Dojival Vieira, editor de Afropress.
Afropress - Como surgiu a idéia de promover a manifestação "Paixão de Cláudia" nesta sexta-feira santa?
Renata Felinto - Quando a Claudia da Silva Ferreira veio à óbito de uma forma horrenda, fiquei muito chocada e, ao mesmo tempo, observando a naturalidade com que a grande mídia e a sociedade civil estavam aceitando essa situação. Era o limite de agressões constantes que nós negros sofremos diáriamente. Só neste ano, um adolescente amarrado nu a um poste como numa aquarela de Debret do século XIX; depois um moço preso por dias “por engano”; e para fechar de forma bárbara, uma mulher negra baleada acidentalmente, socorrida pela PM e arrastada por 350 metros. Uma mãe de família, que criava quatro filhos e mais quatro sobrinhos, uma guerreira, uma lutadora e a imprensa notificou esse acontecimento, tal qual um fato corriqueiro. Manter o silêncio seria aceitar essa atrocidade como algo corriqueiro e não o é.
Poderia ter sido com uma mulher da minha família, com uma amiga, comigo, entretanto, foi com uma desconhecida, mas que está na mesma labuta que eu e muitas diariamente, na verdade, numa labuta mais brutal ainda cotidianamente dado o contexto do local onde ela vivia com os filhos e o marido.
Fiz um chamado no coletivo de mulheres negras que existe numa rede social e houve uma grande discussão e adesão inicial. Estendi esse convite no meu perfil e convidei as pessoas a se reunirem para pensarmos na data da Paixão de Cristo, tendo a Claudia como uma espécie de Cristo, como se o que lhe passou fosse o ápice das torturas e violências que nós, negros e, especialmente negras, estamos sujeitos nessa sociedade contemporânea e demagógicamente democrática.
Como a Igreja enquanto instituição, opina em assuntos de menor relevância e em fatos como estes silencia, se esquiva, a data da Paixão de Cristo era a adequada, mas como “Paixão de Cláudia”. Mulher preta, mãe preta, mais uma mãe preta num país criado às custas das mães pretas. Quem vai ressuscitar depois? O povo negro e nossos aliados coloridos, sejam eles brancos, mestiços, amarelos, vermelhos. Vamos ressuscitar enquanto consciência de coletividade, enquanto ato da sociedade civil negra, que se manifesta por meio da arte, arte como instrumento de conscientização que sempre foi.
Pensei também nesta data por ser feriado, não queremos problemas de entraves na cidade, não somos vândalos e nem queremos nenhum tipo de rótulo do tipo ou transtornos. Desejamos nos expor, mostrarmos nossas caras negras, que existimos e estamos aqui observando esse genocídio e não o aceitamos.
 Afropress - Quais as entidades e coletivos que efetivamente estão participando da convocação da manifestação?
RF - Há muitos artistas e ativistas que não estão necessariamente ligados a pessoas jurídicas. Mas podemos citar alguns nomes, tanto das pessoas físicas, quanto das jurídicas, porque muitas vezes elas trabalham na entidade “x”:, mas isso não quer dizer que essa entidade nos apóie oficialmente.
Assim, o Instituto Feira Preta, da Adriana Barbosa tem nos apoiado cedendo documentações que precisam ser concedidas por uma associação e não por uma empresa como inicialmente a Cubo Preto Ensino de Arte e Cultura, que estava à frente disso. O Adriano José trabalha para o Instituto Feira Preta e para a Cubo Preto e tem amplo conhecimento de tais trâmites. A Ação Educativa tem cedido seu espaço para reuniões, assim como o Estúdio Morro do Roni Hirsch e da Paula Salvatore. Algumas das mulheres do Blogueiras Negras como a Dara Ribeiro, a Kaísa Isabel e a Paola Ferreira estão auxiliando e trabalhando ativamente. O Negraiz Rosa que atua junto à Fundação Bob Marley. O Vinicius Almeida que faz parte do Coletivo Arrua. O Nabor Júnior fundador da revista O Menelick 2ºAto. O Lau Francisco e a Semayat Oliveira a partir da Rede de Empreendedores Negros Kultafro, da qual muitos de nós fazemos parte, ainda que ela esteja atuando mais lentamente neste momento, continua a representar uma iniciativa espetacular tocada pelo Luiz Paulo Lima e pelo Lau Francisco com afinco. A Juliana Gonçalves que trabalha na CEERT. A Olyvia Bynun, a Janaina Barros, o Wagner Viana, a Natália Marques e a Ana Zumas que são artistas visuais. A Casa das Caldeiras que cederá seu tablado para as apresentações.
A equipe do gabinete do deputado federal Paulo Teixeira que está apoiando com a impressão de material gráfico e, se houver tempo, se a burocracia permitir,  com equipamento de som e transporte. E tem um núcleo fundamental nessa organização que é a artista visual Larissa Glebova, a designer Nina Vieira, ligada ao Manifesto Crespo e Taisa Souza criadora da Roda da Mãe Preta.  
Ressalto os vários artistas que se apresentarão gratuitamente e em condições não ideais porque ainda não temos algumas questões fundamentais contratadas, como é o caso do Vitor da Trindade e de seu filho Zinho Trindade, do grupo Ilú Oba De Min, que foi o primeiro a aderir ao ato e é formado por mulheres, as poetas Tula Pilar, Elizandra Souza e Jenyffer Nascimento, o grupo Sambaqui, a Cia Sansacroma, a pesquisadora e dançarina Luciane Ramos, enfim, há muitas pessoas envolvidas, nem conseguirei citar todas, mas basicamente são cidadãs e cidadãos.
 Afropress - Que entidades do movimento negro tradicional estão apoiando?
RF - Eu afirmaria que nenhuma. Quando se trata de movimento negro brasileiro contemporâneo neste ato cultural, como podemos observar a partir dos nomes citados, são grupos e pessoas totalmente novos. Gostaríamos muito de ter tido o apoio das entidades tradicionais do movimento negro. Mas temos um enorme problema acerca do qual, talvez, eu nem consiga tratar e explicitar bem porque eu nunca estive efetivamente conectada a nenhuma dessas entidades porque sempre discordei de algumas posturas.
Portanto, não sei bem a maneira como elas operam em se tratando dos negros da sociedade civil, pois o que vejo são diálogos truncados entre as próprias entidades, nem conexão nenhuma com a negra e o negro comum que não está vinculado à tais questões de forma consciente.
 Afropress - Como você está vendo o movimento negro brasileiro no momento atual e como vê a existência de uma ala chapa branca e governista que faz o papel de porta-voz dos Governos e dos partidos?
RF - Fica evidente, a partir desse ato cultural, que há uma questão a ser resolvida dentro do próprio movimento negro cujas entidades que o compõem não têm se mobilizado efetivamente, nas ruas, nos espaços públicos, conseguindo aliadas e aliados, trazendo à público a discussão de como nós negas e negros somos tratados pelo Estado brasileiro em nossas necessidades e especificidades.
Como uma pessoa homossexual mesmo pouco politizada adere à Marcha LGBT e uma pessoa negra na mesma condição acerca de sua identidade não adere ao movimento negro? O movimento negro possui discursos e ações que estão distantes das realidades dos negros e negras.  Tanto a linguagem quanto a atitude e atuação precisam ser renovadas e ainda não se percebeu que um desses motes de renovação é via cultura, via arte.
Há muitos artistas negras e negros pensando a nossa condição histórica por meio da música, das artes visuais, da dança, das artes cênicas, da literatura. O movimento negro e, muito possivelmente, a sociedade de maneira geral, não se deu conta de que as expressões artísticas, para além dos muros invisíveis dos museus, institutos, centros culturais, constituem-se como formas de pensamento que são protestos também.
A arte é o que fica da humanidade. Veja os legados das grandes civilizações, dos grandes povos, ele se materializa pela arte. E ela é sim uma importante ferramenta na construção dessa consciência negra, não somente no sentido do panfletarismo, mas da poesia também, da contemplação, da discussão, etc.
Não gostaria de adentrar nesta questão absolutamente política partidária, que envolve apontar os problemas dentro do atual Governo, da oposição e da situação, até porque sabemos que isso nem existe mais. Se é para falarmos de governos e de líderes, gostaria de lembrar apenas que nosso último grande líder ficou lá no século XVI e seu nome era Zumbi. Ainda, ou melhor, só rememoramos Zumbi e, vez ou outra, alguém se lembra de João Candido.
Para além deles, temos importantes nomes negros, pensadores e artistas, não conseguimos citar um nome de líder negro com peso no âmbito político.
Entretanto, a pergunta se refere à política, e nos Estados Unidos há um tal de presidente negro chamado Barack Obama, antes dele teve um tal de Malcom X, antes um Luther King, enfim, o século XX e XXI está acontecendo para o movimento negro estadunidense.
Nós estamos patinando, estamos na lama atolados e sem conseguir sair dela, até porque os irmãos aqui não estão estendendo as mãos uns para os outros, estamos no “salve-se quem puder”, cada um vendo o que interessa à sua entidade, que alianças podem ser feitas para beneficiar a si próprios, o que se ganha e se recebe em troca de determinados favores, um trabalho que não está sendo pensado para a população negra, salvo raras exceções, isso apesar de avanços como cotas raciais terem sido uma excelente conquista, mas que ainda não chegou às maiores universidades públicas do país.
Precisamos de líderes, de pessoas que não tenham receio de quebrar com seus partidos, e se quebrarem que outros negros e negras os apóiem, se mostrem irmãos, que a bandeira seja a nossa ancestralidade que não pensem em se autobeneficiar,  que estejam lá por todos, romanticamente por idéias e avanços, e como podemos ver isso, no movimento negro, isso só parece possível para quem não tem vínculos político partidários.
Afropress - Faça as considerações que julgar pertinentes.
RF - Salve, Cláudia, salve sua família negra batalhadora, sobrevivente como a minha, como a de muitos outros negros e negras. Não era para estarmos aqui. O projeto de imigração européia, uma série de leis que nos oprimiam e violentavam a nossa cultura herdada, como diz Makota Valdina, “nossos modos negros de ser e de viver”, contudo, aqui estamos.
Ainda citando essa sábia, essa mulher maravilhosa que esse país não conhece, “com o poder nas mãos, o que vamos fazer? Faremos que nem os brancos?”, algo assim. O que faremos quando tivermos com o poder nas mãos? Tudo do mesmo jeito? As entidades do movimento negro têm feito tudo do mesmo jeito.
Gostaríamos de agradecer a todos que acreditaram nessa ideia, simplesmente porque tão quanto ou mais indignados do que nós, os organizadores. Tenho um doutorado para terminar, uma casa e um filho pequeno para criar, pão para ganhar e não é possível que pessoas que têm muito menos a fazer diáriamente não tenham algum tempo para pensar e agir coletivamente. Ah, isso tudo o que disse, alguém vai ler e dizer: “tinha que ser artista”. 

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Plano para cultura afro-brasileira começa a ser elaborado- Portal Brasil

Nos dias 14 e 15 de abril, o Grupo de Trabalho do Colegiado Setorial de Cultura Afro-Brasileira se reunirá no auditório da Fundação Cultural Palmares, em Brasília (DF), para debater as estratégias de construção do Plano Setorial para a Cultura Afro-brasileira. É mais um passo para o reconhecimento e a valorização das manifestações culturais e artísticas negras brasileiras como patrimônios nacionais.
A construção do Plano Setorial para a Cultura Afro-brasileira, que está respaldada no cumprimento da meta de número 46 do Plano Nacional de Cultura (PNC), será coordenada pela Fundação Palmares, e terá como primeira etapa a definição dos seus eixos de atuação, bem como metas e ações, que deverão, após aprovação, orientar a elaboração e implementação de políticas públicas para a cultura afro-brasileira.
Primeiro encontro
Um dos principais objetivos desta primeira reunião é discutir a estratégia de ampliação dos debates para a construção do Plano. De acordo com o diretor do Departamento de Fomento e Promoção da Cultura Afro-Brasileira da FCP-MinC, Lindivaldo Júnior, a participação de todos os agentes da cultura negra é importante. “Somente conhecendo as ideias e necessidades de quem faz a cultura afro-brasileira é que poderemos criar um Plano que atenda a todos e seja verdadeiramente democrática”, pontua.
“É importante estudarmos e entendermos as metas do PNC e suas interfaces para que possamos construir um Plano que contenha metas factíveis, e ao mesmo tempo, possa dialogar com os outros planos setoriais para que seja efetivado também nos planos municipais e estaduais”, afirma.
Foco no patrimônio afro-brasileiro
Para o diretor da FCP-MinC, existe atualmente um esforço brasileiro na consolidação das políticas de ações afirmativas e, segundo ele, esse é o momento ideal para a criação de um instrumento focado na promoção, no fomento e na preservação do patrimônio cultural afro brasileiro.
“É nosso dever consolidar políticas públicas que valorizem e reconheçam a cultura afro-brasileira e suas contribuições históricas para a formação da cultura brasileira”, aponta. “Mas, para que isso aconteça, é necessário estimular o debate e a reflexão buscando nessas referências as bases para um plano construído de forma democrática e inclusiva”, analisa o diretor.
Próximas etapas
As próximas etapas envolvem reuniões e debates de caráter nacional que estimulem a sociedade a refletir sobre a importância do Plano para a cultura nacional. “O plano será o norteador da política de cultura afro-brasileira e, o seu ponto mais forte, é que ele está sendo feito em parceria com as lideranças escolhidas pela sociedade para tal”, argumenta Lindivaldo Júnior. “Para nós, o mais importante é alcançar o máximo de contribuição de todos os municípios, para que quando o documento final seja aprovado, todos se sintam contemplados”, afirma.

terça-feira, 15 de abril de 2014

Justiça considera Zara responsável por escravidão e empresa pode entrar na ‘lista suja’ - Reporter Brasil

A tentativa da Zara de anular na Justiça os autos de infração da fiscalização que resultou na libertação de 15 trabalhadores em condições análogas às de escravos em 2011 fracassou. O juiz Alvaro Emanuel de Oliveira Simões, da 3ª Vara do Trabalho de São Paulo, negou na última sexta-feira, dia 11, recurso da empresa nesse sentido e cassou a liminar que impedia a inserção no cadastro de empregadores flagrados mantido pelo Ministério do Trabalho e Emprego e pela Secretaria de Direitos Humanos, a chamada “lista suja” da escravidão.
Em sua decisão, o magistrado afirma que, como defendido pela Advocacia-Geral da União, a empresa tem sim responsabilidade direta pela situação constatada, critica a tentativa da Zara de caracterizar os costureiros resgatados como empregados da empresa intermediária Aha e classifica a maneira como a terceirização dos trabalhadores foi registrada como “fraude escancarada”.
Fotos: Bianca Pyl
Blusa da Zara produzida com trabalho escravo. Fotos: Bianca Pyl
“A decisão é bem fundamentada e certamente configurará um divisor de águas na discussão sobre a responsabilidade jurídica por condições de trabalho em cadeias produtivas”, afirma Renato Bignami, coordenador do programa de Erradicação do Trabalho Escravo da Superintendência Regional do Trabalho, que ressaltou a importância de o relatório de fiscalização reunir documentos e provas detalhando a situação. “O juiz leva em consideração todos os argumentos apontados pelos auditores na sua decisão”, ressalta.
Da Espanha,  Raúl Estradera, porta-voz da Zara, afirmou à Repórter Brasil que a empresa vai recorrer da sentença. “É mais um passo em um processo judicial que vai ser longo. Com todo respeito à decisão, entendemos que não foram considerados nossos argumentos e que não tivemos oportunidade de nos defender de forma adequada”, afirma, insistindo que a responsabilidade é da empresa intermediária. “Foi essa empresa que realmente cometeu as irregularidades, e obteve o lucro com isso. Eles que deveriam estar sendo punidos. Nós temos tomado ações de responsabilidade social, inclusive colaborando com entidades públicas e do terceiro setor em um esforço para melhorar as condições de trabalho não só nas nossas cadeias produtivas, mas no Brasil em geral.”
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Costureira resgatada produzindo roupas da Zara em 2011
Subordinação camuflada
Apesar dos argumentos e da tentativa de transferir a culpa para a intermediária, para a Justiça do Trabalho não restam dúvidas de que a responsabilidade é da Zara. A sentença aponta que a Aha foi contratada para minimizar custos e burlar a legislação trabalhista. “A fraude da intermediação é escancarada, pois, na verdade, houve prestação em favor da vindicante com pessoalidade, não eventualidade, remuneração e subordinação econômica”, diz a decisão, que ressalta que ”a subordinação, embora camuflada sob a aparência de terceirização, era direta aos desígnios da comerciante das confecções”. O texto destaca ainda ”que a fiscalização verificou, outrossim, que as oficinas onde foram encontrados trabalhadores em condição análoga à de escravidão labutavam exclusivamente na fabricação de produtos da Zara, atendendo a critérios e especificações apresentados pela empresa, recebendo seu escasso salário de repasse oriundo, também exclusivamente, ou quase exclusivamente, da Zara”.
O argumento de que a Zara não tinha conhecimento da situação a que os trabalhadores estavam submetidos também é refutado na decisão. “A Aha não tinha porte para servir de grande fornecedora, e disto ela [a Zara] estava  perfeitamente ciente, pois, realizando auditorias sistemáticas, sabia do extenso downsizing realizado, com o número de costureiras da Aha caindo mais de 80%, ao tempo em que a produção destinada à Zara crescia”, diz a sentença. “A Zara Brasil Ltda. é uma das maiores corporações do globo em seu ramo de negócio, custando crer, reitere-se, que tivesse controles tão frouxos da conduta de seus fornecedores, mostrando-se muito mais palatável a versão defendida pela fiscalização, de que, na realidade, controlava-os ao ponto de deter a posição de empregadora.“ 
Oficina onde
Oficina onde peças eram fabricadas tinha condições degradantes
Na sentença, o juiz também critica o fato de a empresa alegar, ao tentar negar a responsabilidade por trabalho escravo, que tem contribuído com o poder público e com ações sociais, chamando a atenção para o fato de o Termo de Ajustamento de Conduta firmado junto com o Ministério Público do Trabalho ter sido assinado meses após o resgate. “A celebração de TAC com o Ministério Público do Trabalho, embora louvável, foi posterior à autuação, não implicando, logicamente, nenhuma influência no resultado da lide, por não convalidar situação pretérita”, diz o texto, destacando que o investimento em ações sociais estava diretamente relacionado à preocupação em recuperação da marca. “Chega a ser insólito, de outra banda, o longo discurso derredor de conduta da entidade capitalista, igualmente posterior à lavratura dos Autos e igualmente desinfluente para o deslinde desta contenda, no sentido de prática de ações de certa repercussão social, cujo objetivo primordial foi, sem dúvida, a recuperação da imagem da marca, imensamente desgastada pela repercussão dos resultados da fiscalização na mídia.”
“Lista suja”Na sentença, o juiz reforça ainda a importância do cadastro de empregadores flagrados, a “lista suja”, e reafirma sua legitimidade. Ele escreve: “Diversos dispositivos legais fornecem o alicerce para a edição da Portaria nº 2, de 12 de maio de 2011 [que rege o cadastro], merecendo destaque a própria Constituição da República, que erige em princípios fundamentais o valor social do trabalho e a dignidade da pessoa humana, e consagra, desde seu preâmbulo, o direito à liberdade, e todos esses princípios estariam sendo vilipendiados se acatada a tese da postulante”. 
No recurso que foi rejeitado na sexta-feira, a Zara questionava a própria existência da “lista suja”, posicionamento extremo que levou a empresa a ser suspensa do acordo empresarial contra a escravidão, o Pacto Nacional pela Erradicação do TrabalhoEscravo.

Chegou a hora de empreender fora de casa! - Revista Raça


Nos últimos dez anos, as pesquisas apontam o crescimento da população feminina, e como consequência, está acontecendo uma mudança no cenário do empreendedorismo brasileiro. De acordo com o SEBRAE, o número de negros empreendedores cresceu 28,5%. De acordo com a Pnad – Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios do IBGE, a participação das mulheres no mercado de trabalho passou de 41,7% (2001) para 42,2% (2011); o número de mulheres à frente de um negócio passou de 28,7%, em 2001, para 30,8% em 2011.
Embora o crescimento apresente um novo aspecto na produção e participação do negro na economia brasileira, pesquisas indicam que mulheres continuam tendo salários menores do que os homens, e quando o recorte se soma ao parâmetro racial, as diferenças se tornam ainda maiores. “As mulheres têm avançado na conquista de seu espaço no mercado de trabalho ao longo dos últimos anos, têm conquistado mais postos de destaque e cargos de liderança, tanto em empresas como nos governos. Entretanto, ainda temos desafios. Apesar de sermos a maioria entre as pessoas em idade ativa – 52,3% – ainda somos minoria entre as pessoas ocupadas – 42,4% (PNAD 2012). Além das dificuldades de acesso ao mercado de trabalho, quando ocupadas, as mulheres recebem menos do que os homens”, aponta Tatau Godinho, da Secretaria de Políticas do Trabalho e Autonomia Econômica das Mulheres da Presidência da República.
Além do fator de gênero, o fator racial aumenta os índices da desigualdade entre homens e mulheres negras. “O racismo é um importante indicador de análise da dinâmica das relações no mundo do trabalho, considerando que a situação de desigualdade das mulheres negras se manifesta de formas variadas: ocupação dos postos mais baixos da escala salarial, com maior precarização; remuneração desigual em ocupações de igual categoria; discriminação na admissão, promoção e qualificação. Somado a isso, são obrigadas a conciliar o emprego com as responsabilidades familiares, enfrentando assim uma dupla ou tripla jornada de trabalho.
Apesar de as mulheres terem sido incorporadas às novas atividades produtivas, as relações de poder entre mulheres e homens e entre mulheres brancas e mulheres negras nestes espaços não têm se alterado significativamente ao longo dos anos. Segundo o IBGE, entre os donos de negócios existentes no Brasil, por exemplo, 31% são mulheres e 69% são homens. A participação das mulheres é ligeiramente maior na categoria outros (principalmente amarelos), com uma proporção que chega a 34% do total, e cai para 32% na categoria dos brancos e 29% entre os pretos e pardos. A participação dos homens é de 71% nos pretos e pardos, 68% nos brancos e 66% nos outros (e 69% na média geral)”, explica Mônica Alves de Oliveira, diretora de programas da Secretaria de Ações Afirmativas da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial.
Outro fator que aponta as desigualdades se dá no território brasileiro: “52% dos novos empreendedores - aqueles com menos de três anos e meio de atividade - são mulheres. A força empreendedora feminina é a maioria em quatro das cinco regiões brasileiras. Apenas no Nordeste elas ainda não ultrapassaram os homens, mas estão quase lá, com aproximadamente 49% de participação entre os novos empresários. As mulheres também são mais escolarizadas e investem mais em qualificação, buscam acesso às informações, não permitem amadorismo”, aponta Luiz Barreto, presidente do SEBRAE.
Se por um lado a tendência histórica são as mulheres negras ocupando os serviços domésticos, por outro, o aumento de experiências empreendedoras entre a comunidade negra feminina muda o curso dos números, que reforçam aspectos de uma sociedade onde a democracia racial e de gênero e as políticas de ações afirmativas sejam incipientes ao processo de equidade social; o aumento de mulheres no mercado empreendedor é notável nos últimos anos, apresentando aspectos econômicos de concorrência e criação de uma segmentação de público notável. Do mercado da moda à criação de produtos voltados ao segmento afrodescendente, as mulheres negras estão se fazendo notar. “Analisando a categoria das mulheres que trabalham por conta própria, vemos, mais uma vez, que elas estão mais concentradas em áreas semelhantes àquelas que empregam mais mulheres no mercado de trabalho: 32,6% das mulheres atuam no setor de serviços e 29,8% no comércio. O setor de atividade com menos de presença de mulheres é o da construção. Apenas 0,2% das mulheres que trabalham por conta própria atuam nesse ramo”, explica Godinho.
Um exemplo notável entre as empreendedoras paulistanas, Adriana Barbosa há onze anos realiza o primeiro e único evento que reúne empreendedores negros, a Feira Preta. “A mulher negra, ao longo dos últimos anos, vem construindo suas próprias estratégias para superar os desafios e obstáculos do dia a dia, e olha que não são poucos. Não é à toa que boa parte do perfil empreendedor da Feira Preta são mulheres, não só da Feira como o perfil dos afro-empreendedores que tem aparecido nas pesquisas que fazemos sobre o tema. O perfil empreendedor da mulher negra não é de agora, há muito tempo ela comanda a maioria dos lares brasileiros, é ela que traz o dinheiro pra casa e cuida da parte orçamentária da família. E traz o dinheiro pra casa com pequenos negócios, seja vendendo quentinhas, fazendo cabelo, ou criando peças de artesanato. Muitas delas estão na informalidade, mas já empreendendo há muitos anos”, observa Adriana.
Políticas, formação e reconhecimento da afro-empreendedora Exemplo entre as mulheres empreendedoras negras de sucesso, Zica Simões foi indicada na lista da Forbes como uma das brasileiras mais influentes. “É maravilhoso! Quando a gente começa um novo negócio nunca sabe ao certo onde pode chegar. Estar na Forbes é algo que eu nunca tinha imaginado. De repente, você está no meio daquelas pessoas grandiosas, formadores de opinião em diferentes setores do mercado. O preconceito ainda existe, mas momentos como esse, certamente, trazem esperança para as mulheres e mostram que é possível alcançar seus sonhos”, disse Zica Simões.
Contudo, o caso de Zica ainda é uma exceção e inspiração entre as mulheres negras empreendedoras. As histórias das microempreendedoras têm em seu começo um ponto em comum: as dificuldades de investimentos e a falta de conhecimento. “O início é sempre caótico, por falta de instrução e conhecimento, saímos fazendo tudo e de qualquer jeito, daí quebramos a cara aqui e ali, e vamos ajudando umas as outras, com informações, relatos de experiências ruins, contatos, a coisa vai acontecendo. Mas só percebemos o quanto não sabemos quando estamos a alguns passos a frente e olhamos pra trás. Aí conseguimos ver o conhecimento adquirido em áreas que não fazem parte da história do negro no Brasil, por exemplo administrar. Somos treinados a ter um patrão, a seguir ordens e obedecer. Quando nos deparamos com uma situação que necessita deste tipo de empoderamento, quase sempre não conseguimos resolver”, relata Marçal.
“As políticas públicas necessitam considerar que os empreendedores negros, pela própria situação de racismo, muitas vezes não estão devidamente institucionalizados, ou não preenchem as exigências mínimas para acessar benefícios e recursos oriundos de políticas públicas específicas para este setor. Neste sentido, os critérios precisam mudar para comportar estes novos empreendedores. E o processo de divulgação dos benefícios dos editais tem que levar em conta as especificidades deste empreendedor”, reitera Cida Bento, do CEERT.

No momento de caos, as empreendedoras buscam cursos de formação e com o tempo vem o aprimoramento técnico na área administrativa, gerando ao segmento a necessidade de criar programas voltados ao afroempreendedorismo. “O empreendedor precisa estar bem capacitado para enfrentar as dificuldades e saber quais os melhores caminhos para ter uma equipe qualificada. Em sintonia com esse cenário, o Sebrae vem investindo em ações de capacitação e desenvolvimento de atitudes empreendedoras com a população negra. Em parceria com o Instituto Adolpho Bauer e o Coletivo de Empresários e Empreendedores Negros de São Paulo, lançamos o projeto Brasil Afroempreendedor ano passado. O objetivo é capacitar donos de pequenos negócios em comunidades negras remanescentes de quilombos em 12 estados brasileiros. Além dessa parceria voltada especificamente para os afroempreendedores, oferecemos cursos e palestras, consultorias e informações de gestão para quem já empreende ou para quem sonha em montar a sua empresa”, destaca Luiz Barreto.
Zica Simões, proprietária dos salões da rede Beleza Natural
No âmbito das políticas públicas, a diretora de programa de ações afirmativas da SEPPIR, Mônica Alves, destaca que “a SEPPIR tem buscado atuar em dois eixos – ação afirmativa nas empresas, através de nossa participação no Programa Pró-Equidade de Gênero e Raça, em parceria com a Secretaria de Políticas para Mulheres (SPM) e no incentivo às ações afirmativas nas políticas e programas de empreendedorismo”. O Programa Pró-Equidade de Gênero e Raça, coordenado pela Secretaria de Políticas para Mulher, existe desde 2005, e tem como objetivo promover a igualdade de oportunidades e de tratamento entre homens e mulheres e entre negros e não-negros nas organizações públicas e privadas e instituições por meio do desenvolvimento de novas concepções na gestão de pessoas e na cultura organizacional. As empresas que aderem ao Programa se comprometem a elaborar e desenvolver um plano de ação com atividades para diminuir as desigualdades de gênero e raça em sua instituição. O Programa está atualmente na sua 5ª edição e, somente na última, já beneficiou 900 mil trabalhadores e trabalhadoras, direta e indiretamente”, completa Tatau Godinho, da SPM.
“Por outro lado grandes empresas, bancos e o próprio estado brasileiro necessitam colocar o dado cor em seus cadastros de fornecedores, de modo a perceber que negros não estão inclusos neste cadastro e, portanto, não tem a chance de prestar serviços para grandes organizações”, destaca Cida Bento.
Embora algumas ações estejam sendo feitas no âmbito privado e federal para capacitação e geração de oportunidade para o afroempreendedor, vale destacar que a ausência de dados que especifiquem e apontem com exatidão o atual quadro do afroempreendedorismo dificulta que se compreenda a real influência do segmento no mercado e na economia.
“Eu sinto falta de uma pesquisa mais consolidada para mapear de fato a realidade empreendedora entre os negros no Brasil. Temos o crescimento, mas ele ainda é invisível pela falta de pesquisas e publicações no tema. Apenas nos últimos 3 a 5 anos esse tema está mais visível para algumas agências do governo, mas é invisível para a iniciativa privada. Precisamos saber qual o percentual de negros que estão empreendendo hoje, quais os segmentos e qual a panorama desse mercado. Esse diagnóstico fará toda a diferença na luta desigual entre brancos negros que empreendem. O que posso afirmar, por experiência própria é que a desigualdade existe e está presente todos os dias. Seja pela falta de financiamento, seja pela falta do capital de giro, seja pela falta de informações que os mantenham competitivos no mercado. Se não existisse essa desigualdade, não existiriam hoje ações afirmativas do governo e outras agências de apoio ao empreendedor, para ajudar a combater a discriminação racial”, relata Adriana Barbosa, da Feira Preta.
Feira Preta, o maior encontro de cultura negra da América Latina

Empreendimentos em prol da identidade e autonomia A trajetória histórica da mulher negra tornou-a sinônimo de guerreira. Acostumada a gerir casa, gestar e cuidar da família, enveredar para o empreendedorismo é o fluxo e extensão da ordem natural para algumas, já que ser a mantenedora emocional e material da casa nunca foi uma novidade para maioria das pretas brasileiras. A maioria dos empreendimentos femininos surge da necessidade de afirmação e construção da identidade.
Foi assim com um das principais e mais influentes empreendedoras negras da atualidade, Zica Simões, ex-empregada doméstica e criadora da rede de cuidados com os cabelos afro Beleza Natural. “O Beleza Natural surgiu quando eu procurava fortalecer minha imagem, buscando melhorar o visual dos meus cabelos que sempre foram muito crespos e sem maleabilidade. Fui estudar para ser cabeleireira porque acreditava que, conhecendo meu fio, poderia fazer alguma coisa para melhorar minha situação – não me conformava em ter de alisar os cabelos para ficar com um aspecto razoável. Passei dez anos estudando o fio crespo e misturando e testando cremes e produtos com o intuito de me dar aquele visual sonhado: cabelos naturais, cheios de cachos, com brilho, maciez e beleza. Quando cheguei à fórmula que deu aos meus cabelos mais maleabilidade, além de ficar extremamente feliz com o resultado, percebi que poderia levar essa solução para várias pessoas da minha comunidade, todas com um problema similar ao meu. Assim surgiu o primeiro salão Beleza Natural, na Tijuca, no Rio de Janeiro, aberto em 1993”, lembra a empresária.
Após serem furtadas num arrastão, Adriana Barbosa e Deise Moysés, que trabalhavam vendendo pasteis e roupas de brechó na feira, perceberam que estava na hora de mudar o rumo da história: “Decidimos criar a nossa própria feira. Foi ai que surgiu a Feira Preta, em 2002, com a proposta de reunir no mesmo espaço comércio e cultura. Nesses últimos anos a Feira se transformou no maior encontro de cultura negra da América Latina. Une cultura e comércio de produtos afro-étnicos. Desde o seu surgimento, a Feira é realizada anualmente, com o forte objetivo de difundir costumes e tradições da cultura negra e fomentar negócios entre empreendedores da comunidade negra. Em onze edições do evento, a Feira Preta já reuniu 500 artistas, 600 expositores, mais de R$ 3,5 milhões de circulação monetária e 100 mil visitantes. Em 2009, foi criado o Instituto Feira Preta, que celebra o movimento cultural de coletivos que se dedicam à temática negra e reúne informação sobre vários artistas, em diferentes linguagens, funcionando como uma base de dados e divulgação de eventos, iniciativas, exposições, performances”, explica Adriana Barbosa, criadora da Feira Preta.
Prestes a lançar a sua primeira coleção de acessórios feitos com tecidos africanos, a atriz e empreendedora Débora Marçal já faz da sua marca Preta Rainha um negócio de sucesso com público fidelizado. “A ideia é criar um estilo que ofereça a possibilidade de outro conceito de beleza, diferente do padrão que temos há anos, onde nem todas as mulheres são privilegiadas. Crio peças que pensam o corpo, o cabelo e a vestimenta como uma manifestação da forma de cada individuo ser e se manifestar no mundo. O que busco é valorizar o que cada um traz de mais autêntico: a textura da pele, do cabelo, formato do rosto, tudo em composição com as geometrias das estamparias africanas, aumentando e fomentando a autoestima das mulheres brasileiras, em especial a mulher negra que não está dentro de nenhum padrão na mídia”, explica Marçal.

“Há mais de 20 anos lutamos pela valorização do cabelo crespo. Na época em que comecei a pesquisar, o mercado só oferecia alisamentos, henês, pastas. Nada que valorizasse verdadeiramente o cabelo crespo e cacheado. Hoje melhorou um pouco e a indústria cosmética, com a ajuda da mídia, com atrizes assumindo os cachos, está começando a dar mais valor aos cabelos crespos”, observa Zica Simões.
Embora a presença majoritária das mulheres empreendedoras (negras ou não-negras) esteja relacionada às atividades de comércio e serviços, Luiz Barreto, presidente do SEBRAE, ressalta que “empreender no setor de serviço não é negativo, não representa um demérito para o empresário. De um modo geral, as atividades do setor de serviços são dominantes nas economias fortes”.
Por outro lado, a diretora executiva do CEERT, Cida Bento pondera que “estar nos serviços mais desprestigiados e nos quais os salários são menores é o grande problema. E isto é fruto da conexão mulher, negra e pobre. Ressignificar na mídia o lugar da mulher negra como especialista, executiva, cientista pode ajudar a alterar o imaginário que só enxerga a mulher nos piores nichos. O próprio governo, que é quem mais despeja recursos nas agências de propaganda, pode definir que só contratará serviços de empresas que valorizem todos os segmentos sociais”.
Débora Marçal, dona da marca de acessórios feitos com tecidos africanos Preta Rainha
Mais do que difundir produtos na mídia, a necessidade de se criar espaços que explicitem esse novo mercado pode fomentar a competitividade, o conhecimento e acesso aos produtos voltados à identidade afrobrasileira. Para Adriana Barbosa, “a mídia precisa entender o conceito da diversidade também como um valor competitivo. No Brasil existe um grande percentual de mulheres negras com poder de compra, que não se enxergam representadas em muitos produtos segmentados. Eu particularmente deixo de comprar algo que me agrida na comunicação, ou que não traduza a minha especificidade em seus rótulos. Mas também acredito que hoje é muito difícil passar despercebido. A sociedade está mais atenta aos absurdos, eu digo a sociedade porque não é uma vigilância só da comunidade negra, mas de todos”.
Outro aspecto importante dos empreendimentos geridos por “pretas” é a intimidade com o cliente. A maioria dos negócios não buscam apenas alavancar e expandir as vendas ou lojas, querem dar ao cliente um tratamento diferenciado e personalizado. “Nós atendemos 100 mil clientes por mês só para fazer o tratamento relaxante que não tem formol, e tudo isso com muita luta e força de vontade, mas, isso só não basta. É importante conhecer o seu cliente, seus problemas, o que ele deseja. Quando fundamos o primeiro salão Beleza Natural, conhecíamos muito bem os problemas que cada um de nossos clientes vive: uma batalha com o próprio cabelo, baixa autoestima, dificuldade para relacionar-se profissional e socialmente. E isso fez toda a diferença”, Zica Simões.
“É importante que essa mulher ou homem se sinta visto, cuidado e escutado. Durante muitos anos fomos invisíveis para sociedade e nos tornamos invisíveis para nós mesmos, agora podemos nos ver e saber que temos pares. Eu só passo a existir e me achar bonita ou feia quando eu encontro meus pares, se eu não os encontro, nem existo. Para nós, o que não falta é referência positiva de beleza negra, mas o que se veicula é apenas um modelo, que de tanto se repetir torna-se padrão”, destaca Débora Marçal.

A soberania dos cachos 

A dez minutos do metrô Patriarca, na zona leste de São Paulo, os 40 metros da sala, que para os olhos desavisados não passa de um salão de beleza comum, guardam uma história de luta familiar e o início de uma trajetória de sucesso. Vestidas de preto e amarelo, maquiadas e com cabelos transados, Sandra Antonia (63), Shirley Lella (39) e Sheila Dourado (36) relembram a história da Makeda Cosméticos, empreendimento que desponta no mercado dos cabelos afro no Brasil, Nepal e Angola.
O empreendimento familiar deriva do trabalho de vinte anos da matriarca Sandra Antonia, que ao se separar do pai das filhas, se viu com a força necessária para lutar e reescrever a história. “A gente se acostuma com a violência, acostumamos a não sermos vistos. Nós, negros, não nos vemos. Quando me separei, fui morar no porão de uma empresa de engenharia com as minhas filhas. Fui tudo quanto é eira: costureira, faxineira, cozinheira... até que virei cabeleireira”, brinca. Em 1992, Sandra tornou-se consultora de cosméticos para uma empresa norte-americana, especializando-se em cabelos crespos.
Levada pela matriarca, Shirley Leela, após trabalhar como copista em escritório de arquitetura, ingressou no mundo dos cosméticos para cabelos afro: “A gente experimentava e sabia o que era e o que não era bom para o cabelo crespo ou cacheado. Isso nos ajudou a nos fortalecer enquanto mulheres negras”.
Seguindo o exemplo da mãe e da irmã, Sheila Dourado, aos 17 anos, também enveredava no mundo como técnica-capilar. “Também sou atriz, mas sempre trabalhei como cabeleireira atendendo nas casas das clientes. Saia da sala de ensaio, pegava a malinha e atendia até de madrugada”.
Durante doze anos as três montaram o primeiro negócio, o salão Arte Axé, no bairro do Tatuapé, onde atendiam mais de 600 clientes por mês. Ao fechar este primeiro salão, as três continuariam atendendo como cabeleireiras e consultoras. “Na nossa vida as coisas sempre foram acontecendo, tivemos muita sorte e recebemos muitos presentes ao longo da nossa história, que sempre foi de muita luta. Um dia recebi um e-mail sobre vagas na equipe de produção do Cirque Du Soleil, enviei o currículo e fui chamada. Naquele momento, sabia que alguma coisa estava para acontecer. Fui morar no apartamento de uma amiga que havia viajado e me dividia entre o trabalho no circo e os atendimentos na casa das clientes”, relembra Shirley.
Sheila, Sandra e Shirley, proprietárias da Makeda Cosméticos
Foi numa madrugada que a caçula teve um insight para a criação da Makeda Cosméticos. “Cheguei para minha mãe e irmã, falei que tinha um investidor e que criaríamos os produtos para cabelos crespos e cacheados. Elas me olharam e toparam. A Shirley havia sido mandada embora da empresa de cosméticos e tinha contato com laboratórios, não tinha erro”. O que Sheila não contou para família é que a investidora era ela. “Peguei o cachê dos três meses de trabalho no Cirque e investi na criação dos primeiros produtos. Testamos em nossos cabelos, nas amigas e no meu sobrinho, o Ryan. Aos poucos fomos chegando à fórmula que temos hoje, Coconut-terapia”, explica Sheila.
O empreendimento recebeu o nome da rainha etíope Makeda, conhecida como a Rainha de Sabá, presente na cosmogonia dos povos hebreus, islâmicos e etíope. Ela é lembrada por sua beleza e elegância. “Quando vi a sua imagem e soberania, tive certeza de que estávamos no caminho certo e que a Makeda era um reinício para nossa história”, afirma Sheila. Nas palavras da matriarca, “eu sempre soube que teríamos algo nosso e que ajudaríamos a comunidade negra a se enxergar”, relata Sandra.
Com menos de dois anos no mercado, a Makeda Cosméticos atende mais de trezentas clientes, aos poucos ganha o território brasileiro e o mundo. “Nossas clientes nos procuram, indicam pessoas de outros estados e países, temos clientes que levam os nossos produtos para Angola, Nepal, Salvador, Rio de Janeiro...”.
Pensando na expansão da marca, as três se preparam para dar o curso de formação e especialização em cabelo afro. “Falta conhecimento e intimidade com o nosso cabelo. O nosso intuito é restabelecer essa conexão com o cabelo, com a nossa história. Nos fizeram acreditar que éramos feias com falas e produtos que não são próprios, que agridem ainda mais o nosso cabelo, o nosso corpo. Hoje podemos construir uma nova história, com produtos feitos e pensados por nós, mulheres negras”, finaliza Sheila.

10 DICAS DE ZICA SIMÕES 
1. Corra atrás do seu sonho;
2. Não desista. Mesmo com todas as dificuldade;
3. Entenda bem e goste muito do ramo no qual pretende atuar;
4. Estude, busque novos conhecimentos e pesquise o mercado;
5. Tenha muita determinação e força de vontade;
6. Procure profissionais que te ajudem e tenham conhecimento em diversas áreas;
7. Junte-se a pessoas competentes e do bem;
8. Procure ajudar as pessoas à sua volta por meio do seu trabalho;
9. Não perca o foco;
10. Conheça o seu cliente.




O ESTUDO COMO EMPREENDIMENTO

Ela é doutora e ativista do movimento negro e jovem. Aos 33 anos, Marcilene Garcia de Souza, a Lena, recebeu o título de doutora pela UFPR com o apoio da Fundação Ford, tornando-se referência entre os jovens negros que ingressam na universidade paranaense
por Maitê Freitas


Marcilene Garcia de Souza, Lena para os amigos, hoje tem 37 anos. Em 2010, foi a primeira mulher negra a receber o título de doutora pela Universidade Federal do Paraná. Mudando o curso e o estigma de uma menina nascida em família pobre, no interior do Paraná, Lena viu nos estudos a oportunidade de mudar o caminho que para muitos negros é destino fadado, pelo menos nas estatísticas. “Minha mãe sempre disse: ‘quer vencer na vida? Estude’. Então eu estudei, não faltava na escola, caminhava 11 km numa estrada de terra escura para voltar para casa. Estudar foi o meu empreendimento”, diz.
Filha caçula de uma família de nove irmãos, Lena foi a primeira a fazer universidade e obter título acadêmico. “Não me vejo privilegiada. Numa sociedade racista e cheia de obstáculos sociais, consegui burlá-los. Eu me sinto muito comprometida em fazer mais e melhor para população. O que me faz lutar é a certeza do meu compromisso com os nossos antepassados negros que foram assassinados, humilhados e torturados neste país por mais de 350 anos. São as lembranças deste passado que sempre me moveram para o futuro”.
A educação sempre foi um norte e o solo para que as raízes de Lena amadurecessem. Nos diálogos de amor, como costuma chamar os momentos sentados em círculo na companhia do pai, recebia os primeiros princípios de respeito e solidariedade. “Meu pai era um contador de histórias. Ele foi autodidata, aprendeu a ler e a escrever sozinho, deu aula e alfabetizou outras pessoas. Sempre sentávamos em círculo para ouvir suas histórias, que nos ajudaram a compreender o ser humano. Apesar de não ter luz e livros em casa, eu e meus irmãos ousávamos, lendo bula de remédio, pedaços de revista e a Bíblia. Escrevíamos no chão e na areia da praia em Itapoá (SC). Contávamos o número de plantas e frutas no quintal, ouvíamos histórias e músicas antigas. Percebi, posteriormente, que aquela forma de educar continha signos da história dos nossos antepassados negros, sobretudo quando se refere a uma educação voltada para olhar o todo, respeitando os mais velhos, os animais e as plantas”.
Quando questionada sobre o título de ser a primeira doutora negra da faculdade de sociologia da UFPR, Lena deixa de lado a emoção e a memória para ser enfática sobre compromisso e responsabilidade social. “O mérito da titulação é importante para a população negra, possibilita a ocupação de espaço e garante a diversidade do olhar numa educação fundamentada em conceitos eurocêntricos. Para mim, o título acadêmico é sinônimo de responsabilidade e compromisso com a multiplicação do saber e do olhar para diversidade étnico-cultural afrodescendente”.
A doutora, que no passado vendeu doces caseiros e mandioca para custear o transporte e garantir presença na sala de aula, hoje se pauta no compromisso e na responsabilidade de ser referência perante a comunidade afro e na militância dentro do movimento negro paranaense. Lena criou o IPAD (Instituto de Pesquisa da Afrodescendência), que desenvolve projetos de ações que fomentam a educação do negro no meio universitário. “Muitas vezes, a gente consegue entrar na universidade, mas não consegue permanecer por falta de dinheiro. Já hospedei orientandos na minha casa para incentivá-los a permanecer no curso. O desafio é criar ações afirmativas que vão além da ação afirmativa”, diz.
Há um ano em São Paulo, Lena leciona no curso de direito da Faculdade Zumbi dos Palmares e é coordenadora geral da coordenação de ações afirmativas da Secretaria Municipal de Promoção da Igualdade Racial de São Paulo, a SMPIR. “Acabamos de ter sancionada a lei de cotas para negros em concursos públicos e cargos comissionados no município, isso é um feito para a comunidade afropaulistana. Aos poucos vamos construindo uma nova história de oportunidades. Nós, negros, queremos e precisamos ser protagonistas de nossas histórias, de nossas esperanças”.
Quando questionada sobre as áfricas que lhe habitam, Lena fica em silêncio e surpresa com a pergunta. Mas sua resposta não tarda: “A África da responsabilidade com os meus ancestrais. Quando li “Negras Raízes “(Alex Haley) lembro-me de não conseguir sair do capítulo que descrevia as memórias do navio negreiro. Eu chorava e paralisei diante daquela narrativa. Hoje, a África que me habita é aquela que honra os ancestrais e sabe que não está sozinha”, conclui.